A rede portuguesa de auto-estradas: motivo de orgulho? (3)

I
(continuação) (clique aqui para ver a segunda parte)


Um dos dois principais benefícios que se têm invocado para justificar a construção de algumas novas auto-estradas (a par do encurtamento dos tempos de deslocação) é a diminuição da sinistralidade rodoviária - que, de facto, acarreta vantagens sociais e económicas que não são nada desprezíveis. É um argumento de peso: salvar vidas humanas não tem preço.

Mais uma vez, no entanto, nos estudos de custo/benefício das novas auto-estradas, quando se invoca a previsão de uma redução da sinistralidade, a comparação é feita com a realidade preexistente e nunca com uma boa alternativa à auto-estrada.

Se em lugar do IP5 existisse, há 12 anos, a atual auto-estrada A25 (que substituiu aquela estrada), é possível que não tivesse ocorrido o brutal acidente que vitimou a filha de cinco anos do Presidente da A-CAM. Mas e se em vez do IP5 existisse uma estrada bem desenhada e bem construída, sem a descida assassina onde ocorreu aquele acidente? E se no IP5 se conduzisse com mais cuidado (nas "descidas assassinas" e não só), em vez da condução negligente quase generalizada a que todos podíamos assistir diariamente naquela estrada (no mínimo, com excesso de velocidade)? Teriam ocorrido tantos acidentes graves?

É incontestável que as auto-estradas são mais seguras. Mesmo que os automobilistas continuem a conduzir de forma imprudente, a inexistência de cruzamentos de nível, o separador central a dividir os sentidos de trânsito e as características do traçado permitem uma diminuição do risco de acidentes, sobretudo em corredores com tráfego mais intenso - embora, por outro lado, as maiores velocidades de circulação acarretem um agravamento do risco de acidente.

O que não faz muito sentido é que este seja um dos factores decisivos da construção de mais e mais auto-estradas discutíveis.

Note-se que a única vantagem significativa exclusiva das auto-estradas é a existência de vedação (reduzindo a probabilidade de atravessamento da via por parte de animais de grande porte). Com estradas bem projetadas, bem construídas (com características adequadas ao volume de tráfego) e bem sinalizadas e com medidas (medidas sérias e eficazes!) de controlo e punição das infrações ao Código da Estrada (incluindo cassação de cartas de condução e apreensão de veículos) podem conseguir-se melhores resultados. A Noruega, que, como vimos, tem menos de 1% da rede viária principal em auto-estrada (e menos de 10% dos quilómetros de auto-estrada que existem em Portugal), tem uma das mais baixas taxas de sinistralidade rodoviária do mundo (os noruegueses também têm regras de condução: a diferença é que as cumprem). O Reino Unido tem, em termos relativos, muito menos auto-estradas do que Portugal, mas tem taxas de sinistralidade rodoviária muito menores do que a nossa.

Curiosamente, entre 1990 e 2008:
- Portugal construiu 2 377 km de auto-estrada e o número de mortos nas estradas diminuiu 66,4%;
- no Reino Unido e no mesmo período construíram-se apenas 378 km de auto-estrada, mas o número de mortos nas estradas diminuiu cerca de 51%;
- na Suíça construíram-se apenas 235 km de auto-estrada, mas o número de mortos diminuiu 62%;
- na Bélgica só se construíram 97 km de auto-estrada nesses 18 anos, mas o número de mortos nas estradas diminuiu 52,2%;
- a Lituânia diminuiu a sua rede de auto-estradas em 112 km, mas o número de mortos nas estradas diminuiu 47%;
- a Letónia não construiu um único quilómetro de auto-estrada, mas viu o número de mortos nas suas estradas diminuir 66,6% (mais do que Portugal).

Se tivermos em conta o número de acidentes com vítimas (mortos e/ou feridos), a evolução portuguesa foi bem mais modesta: entre 1990 e 2008, apesar dos rios de dinheiro gastos nos 2 377 km de auto-estradas construídos, o número de acidentes com vítimas em Portugal diminuiu apenas 25,5%, enquanto que, por exemplo, na Bélgica e no Reino Unido, que construíram apenas 97 km e 378 km, respetivamente, o número de acidentes com vítimas diminuiu 32,6% no primeiro caso e 33,5% no segundo.

E tudo isto só para citar exemplos.

Parece, pois, que noutros países se tem conseguido reduzir significativamente a sinistralidade rodoviária sem ser através da "solução" milionária da construção de auto-estradas...

De resto, em Portugal ocorrem demasiados acidentes em auto-estrada, porque mesmo nas auto-estradas os portugueses conduzem de uma forma imprudente (ver adiante). Foi há cerca de um mês que ocorreu um brutal acidente, precisamente na A25 (a tal que substituiu o IP5), que envolveu quase 50 viaturas e causou 6 mortos e 72 feridos. Alguém se recorda de algum acidente ocorrido nos longos anos de vida do IP5 que também tenha causado 78 vítimas ou sequer um número próximo desse?...

Em conclusão, a maior segurança da auto-estrada é uma vantagem que não é possível desprezar. Mas é, no mínimo, muito discutível que ela possa constituir um fator determinante da decisão de construir uma auto-estrada e sem sequer ser realizada uma análise custo/benefício de outra alternativa.

É um mito pensar-se que o grave problema da condução negligente dos portugueses se pode resolver com a construção de auto-estradas. Ou que com a construção de boas estradas em vez de auto-estradas não se conseguem resultados idênticos ou melhores. Podemos, claro, continuar a enganar-nos a nós próprios a esse respeito. Mas isso não ajudará a resolver o problema – antes pelo contrário…

(continua)

Fotografias: acidentes em auto-estradas portuguesas

17 comentários:

Anónimo disse...

quem não quer ver a realidade é você. quem não quer ver que no IP5 morreu mais gente que na A25 é melhor comprar uns oculos bem graduádos.

Anónimo disse...

Caro anónimo das 15:20, onde é que você leu que no IP5 morreu mais gente que na A25? Devemos ter lido artigos diferentes ou então é apenas mais um que lê coisas que não estão escritas no artigo.

Isabel disse...

Há dias em que estás particularmente inspirada, Joana. Parabéns por este banho de artigo.

Pedro disse...

Boa tarde, atirando mais lenha para a fogueira, há que acrescentar que os serviços médicos de emergência têm agora outra capacidade o que engana as percentagens de vitimas fatais em acidentes de viação, já que até a bem pouco tempo só os óbitos declarados na estrada eram contabilizados.

Anónimo disse...

E a incrível evolução na segurança dos carros?

Pedro disse...

E concluindo, há uns anos o numero de vitimas era maior porque o socorro demorava mais e os meios disponíveis eram menores tal como a formação dos técnicos que no interior, e exceptuando os sinistros mais complicados, continua a ser garantida pelos corpos de bombeiros, que nem sempre têm o apoio e formação adequada.

Pedro disse...

Caro anónimo os carros evoluíram não só na segurança, também o fizeram na velocidade e o factor humano não evoluiu da mesma maneira, um factor provavelmente anula o outro.

Anónimo disse...

"E a incrível evolução na segurança dos carros? " E a incrível estupidez e falta de civismo dos condutores?

BMW Star disse...

Eu posso andar em segurança a 160, 180 ou mesmo 200 na auto-estrada, na estrada não. Percebe a diferença ou preciso fazer um desenho?

Anónimo disse...

Não sei se foi isso q o anónimo quis dizer, mas os carros trazem hoje equipamentos de segurança mt. maiores, que podem ajudar a explicar a diminuição grande do nº de mortes mas não no nº de acidentes com vítimas. Se calhar foi muito mais isso do que as AE.

Anónimo disse...

"Eu posso andar em segurança a 160, 180 ou mesmo 200 na auto-estrada"

Pode!? Ora faça lá o desenho..

Anónimo disse...

"Eu posso andar em segurança a 160, 180 ou mesmo 200 na auto-estrada, na estrada não. "

Isso dizem todos até se espetarem contra uma parede e irem fazer tijolo.
Mas já agora também gostava de ver o desenho, e já agora que venha lá bem explícito o tempo de reacção a essas velocidades bem como a distância de travagem.

Anónimo disse...

Sr BMW Star, pode dizer-me quando é vai orgulhosamente pôr a vida dos seus concidadãos em risco a com a suas 2 toneladas de metal a 200 km/h? Assim podemos ir todos observá-lo, perdão, observar a GNR a pedir-lhe "delicadamente" que os acompanhe...

Red Eagle disse...

APesar de discordar de alguns pontos apresentados neste artigo e nos dois anteriores, não posso deixar de registar como o mesmo está bem escrito.

Saudações Chaladas

Nuno disse...

A questão dos acidentes está relacionada com o comportamento dos condutores, a densidade de tráfego, a qualidade das estradas, a segurança do automóvel e a qualidade da assitência médica.
As auto-estradas desempanham um papel importante na parte da qualidade e na redução da densidade de tráfego. Ajuda tb a disfarçar o mau comportamento dos condutores.

Nos outros países a redução da sinistralidade é feita por via da melhoria de todos estes factores. Em Portugal, o comportamento dos condutores manteve-se razoavelmente mau e se não fosse a melhoria clara das estradas, para a qual contrubuiu a construção destas auto-estradas, estaríamos muito pior.

Quando ao facto de haver alguns países que practicamente não construíram auto-estradas, isso deve-se ao facto de já as terem... é natural que o Reino Unido, a Bélgica e a Suiça não tenham aumentado a sua rede porque ela já está estabelecida. Quanto aos outros países não conheço a realidade, mas certamente terão as suas razões para não construir auto-estradas. Se calhar, vão as construir no futuro ou já optaram por outras soluções ou têm outra realidade que torna desnecessário a sua construção. Para não falar da baixa densidade populacional destes países...

Dizer que as auto-estradas não são uma boa forma de reduzir a sinistralidade acho que é um pouco abusivo, tal como utilizar apenas a construção de auto-estradas para essa redução é um falso caminho.

Comparar o número de quilometros construidos nestes países tão diferentes e relacioná-los com o número de acidentes parece-me que foi um pouco forçado...

Anónimo disse...

"As auto-estradas desempanham um papel importante (...) na redução da densidade de tráfego. "

Nisto as auto-estradas muito podem aumentar o número de vítimas mortais, nunca o diminuem. É que no pára-arranca ou em zonas de tráfego muito denso (logo, necessariamente mais lento) podem haver muitos acidentes, mas com vítimas mortais ou feridos muito graves são raríssimos.

O atento disse...

Só para acrescentar que, segundo o Público de hoje, a REFER endividou-se cerca de 6 mil milhões de euros (mais 4 mil milhões do que a Estradas de Portugal); valor este superior ao que o Estado paga em juros de dívida pública (5.5 mil milhões) e mais, veja-se, do que gasta em pensões (4 mil milhões).
Revejam lá essas contas, sff