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Antigamente é que era bom? Nunca foi tão mau como agora? Nunca estivemos tão bem como atualmente? Os portugueses repetem os mesmos erros ao longo da história? Fizemos com os fundos comunitários o que já tínhamos feito com o ouro do Brasil? O ensino nunca foi tão pouco exigente? A política é muito diferente do que há um século? Só recentemente é que passámos a dar cabo do nosso património e dos nossos monumentos ou a adulterá-los irremediavelmente? São perguntas ambiciosas cujas respostas poderá eventualmente obter num blogue de qualidade - não neste. Ainda assim, resolvemos abrir aqui uma nova série de artigos, através da qual vamos, de vez em quando, olhar para o passado da nossa terrinha - o passado recente e o passado menos recente - e fingir que temos as respostas todas na ponta da língua.
O que vão ler a seguir não é ficção.
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É comum dizer-se que o ensino em Portugal nunca foi tão pouco exigente como atualmente. Por isso, vamos recuar pouco menos de 150 anos e transcrever aqui este excerto de um
manual que por essa altura era
utilizado nas nossas escolas, destinado ao ensino da
Agricultura, da autoria de um iluminado chamado António Francisco Moreira de Sá*:
"Pergunta: A que se chama ferramenta de lavoura?
Resposta: A um instrumento simples, portátil, o qual posto que conste de diferentes partes, parece todavia feito de uma só peça.
Pergunta: A que se chama máquina de lavoura?
Resposta: A máquina é um instrumento complicado e composto de várias peças, que se podem desarmar.
Pergunta: O que é um arado?
Resposta: É o que não tem jogo dianteiro.
Pergunta: O que se pode dizer do centeio?
Resposta: Depois do trigo é dos mais úteis cereais.
Pergunta: O que se pode dizer do arroz?
Resposta: O arroz é originário da Índia onde eles fazem do arroz o mesmo uso que nós do pão.
Pergunta: O que há a respeito do feijão?
Resposta: O feijão divide-se em várias qualidades.
Pergunta: O que é necessário para haver bom esterco?
Resposta: Sabê-lo produzir, conservar e empregar".
Uma "obra imortal", um "livro tremendo e profundo como o olhar de um idiota" - assim se lhe referiram Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão*.
Através de um manual de Geografia e Cronologia, da autoria de um professor de nome Victória Pereira, era, na mesma época, possível aos alunos aprender maravilhosas definições como estas:
"A ciência que trata dos fluidos chama-se mineralogia".
"Universo é o espaço que medeia entre a terra e as estrelas".
[não sei se prefiro esta última ou a do feijão]
Pela mesma altura, um outro manual, com o título "Tabuada Metódica dos Rudimentos de Aritmética", da autoria de um senhor (João José Lopes) que até um projeto de reforma educativa apresentou, ensinava aos alunos das nossas escolas coisas fantásticas, como nos revelam estes cinco excertos:
"Pergunta: O menino está aí?
Resposta: Estou, sim, senhor.
Pergunta: O menino só o que é?
Resposta: Sou um menino".
"Pergunta: O que é um?
Resposta: É um".
[entre esta, o feijão e o universo, já não sei...]
"Pergunta: Havendo dez meninos como se chama o menino que estiver «antes» de todos?
Resposta: É o primeiro menino".
"Pergunta: Sabe a quantidade de meninos que existem?
Resposta: Não sei.
Pergunta: O que é preciso para saber a quantidade de meninos que existem?
Resposta: É preciso saber o número deles.
Pergunta: O que é saber o número de meninos que existem?
Resposta: É saber as palavras com que hei-de dizer a quantidade de meninos que existem".
"Pergunta: Seria possível contar uma a uma o número das coisas que existem?
Resposta: Se fôssemos a contar o número das coisas que existem, elas são tantas que nunca acabaríamos.
Pergunta: Então o que se faz para dizer com brevidade o número das coisas?
Resposta: Conta-se uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez coisas. Quando as coisas que se contam chegam ao número dos dedos das mãos que são dez, em lugar de dez coisas, diz-se que temos uma dezena de coisas".
Como nos faltam palavras para comentar à altura estes cinco excertos, fiquemo-nos pelas de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão: "João José Lopes, (...) quem descobre como tu um meio tão simples de dizer com brevidade o número das coisas que existem qual é o de as contar, um homem que acha isto, não pode deixar de ser um cavalheiro. Vemos, amigo, que tens outras obras publicadas e que novos livros preparas para dar à estampa. Parabéns, e avante!".
O retrato que os mesmos autores faziam do estado do ensino em Portugal não era famoso:
"A preocupação única e exclusiva dos preceptores é que os seus alunos estejam quietos no colégio e sejam no fim do ano lectivo aprovados no Liceu Nacional. Para conseguir a aprovação dos estudantes nos exames que eles façam o preceptor emprega todos os esforços e todos os meios, exceto talvez um único, que é o de lhes ensinar o objecto sobre que tem de versar o exame.
(...)
De cada 100 alunos que concorrem a exame do liceu [Nacional] podemos afoitamente computar em 90 o número dos que ignoram as disciplinas em que são julgados aptos. Se os ilustres professores nos quiserem honrar com o seu desmentido, requeremos uma sindicância às escolas e provaremos com factos que, de 100 alunos aprovados em latinidade no ano de 1870 não haverá 6 que em 1871 traduzam correntemente meia página de qualquer autor latino à nossa escolha.
(...)
Os alunos habituam-se desde a infância, nos primeiros actos da sua vida civil, a descrerem do mérito, do trabalho e do estudo, e a contarem para todo o êxito com a falseação das provas, com a mercancia da justiça e com a omnipotência do compadrio - perfeita iniciação para uma existência de intriga, de indolência e de desonra.
Os pais, quites para com as suas consciências dos encargos da educação que devem a seus filhos pelo facto de haverem delegado noutros esses encargos, contentam-se em participar aos parentes que o menino continua a ser aprovado nos seus exames, até que, aos 16 ou 17 anos, o colégio devolve à família plenamente aprovado em todos os seus estudos o menino que a família lhe confiara, e o pai encontra-se então, frente a frente, no seu campo, na sua loja, na sua oficina ou no seu lar doméstico, com um mancebo aproximadamente inútil para toda a espécie de emprego. Todas as faculdades desse pequeno homem, em que a barba principia a repontar com as paixões ardentes da puberdade, estão inertes, enervadas ou corrompidas.
Enquanto à educação do espírito sabe pouco e mal o que lhe ensinaram, não sabe quase nada o que devia saber.
(...)
Na escola politécnica, na Universidade, num escritório comercial ou na casa paterna esse rapaz deixará correr descuidadamente a sua existência pelo declive fácil em que o puseram, sem estímulos afectuosos, sem vontade, sem energia, sem força, sem consciência e sem carácter.
E esta será a bitola dos futuros cidadãos portugueses.
Nós mesmo já fomos educados assim. Vejam o que estamos sendo! (...) Vejam o país que fizemos e a sociedade que constituímos!
(...)
O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares o teu filho. Consagra-te a ele. A educação pública é uma burla atrozmente vergonhosa. Educa-o tu. Se não souberes mais, procura pelo menos torná-lo forte, ensina-lhe a ler e a escrever, dá-lhe um ofício e fá-lo um homem de bem; ele de si mesmo se fará um sábio, se tiver de o ser. A ignorância tem isso de bom: que se desfaz aprendendo. A falsa instrução tem essa perfídia: não dá o ensino e inibe de o tomar".
*Todas as citações são retiradas das edições de Julho de 1871 e de Outubro de 1871 d' As Farpas, de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão (Typographia Universal, 1871), com actualização da ortografia.
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Em
Sinistralidade rodoviária: o que nasce torto... - que poderia ser o número zero desta nova série de artigos -, recuámos cerca de 70 anos e constatámos que os números negros da sinistralidade rodoviária remontam aos primeiros tempos do automóvel em Portugal, quando o parque automóvel era muito reduzido, e que já nessa altura se anunciavam soluções como a de que a formação tinha de começar com as crianças, nas escolas...