Da impossibilidade de namorar nos separadores das auto-estradas* / Elogio do comboio

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No filme “Antes do Amanhecer”, um filme de culto dos anos 90 (sobretudo no universo feminino), um norte-americano e uma francesa conhecem-se enquanto viajam de comboio na Áustria e acabam por se apaixonar. Algo que muito dificilmente aconteceria numa auto-estrada, um mundo em que os únicos pontos onde as pessoas eventualmente se podem cruzar (se lá pararem) são as áreas de serviço.

No último quarto de século, em Portugal temos vindo a impor progressivamente o meio rodoviário como modo de os portugueses viajarem, sobretudo por via do investimento nas auto-estradas e do desinvestimento na ferrovia.

Em causa está muito mais do que a simples troca de meio de transporte. Pegando nas preciosas palavras de Manuel Graça Dias (que por sinal nem foram escritas especificamente só sobre as auto-estradas e o comboio), poderíamos dizer que a auto-estrada “encosta-nos a uma recusa cada vez maior dos outros, do contributo dos outros, isola-nos, força-nos, empurra-nos para uma «independência» que nega, ou pretende substituir, cada vez mais, a hipótese de solidariedade, da vivência junta, da inteligente concorrência para objetivos mais comuns ou generalizáveis. Excita egoísmos [de que deixar o carro estacionado num passeio ou em segunda fila é, afinal, apenas um reflexo], promove o afastamento, conduz ao oposto de um equilíbrio coletivo.

Há, na substituição direta de um meio pelo outro, uma espécie de «lavagem», de higienização, que recorre a uma diminuição sucessiva da necessidade de «contacto» (…), no progressivamente menor grau de sobreposição e simultaneidade com a fruição dos outros – menores, portanto, as hipóteses de discussão, compartilha (…). Abandona, indiscutivelmente, cada um à «sua sorte», a um «arbítrio» mais solitário e imaturo porque cada vez mais isolado da comprovação e do conflito”.

Graça Dias escrevia isto, não apenas a propósito da troca do comboio pelas auto-estradas, mas, em geral, a respeito de um modo de vida que cada vez mais se tem traduzido noutras trocas (o cinema em casa, as consolas de jogos, as transmissões televisivas de concertos ou eventos culturais ou desportivos, etc.).

Não é por acaso que vivemos em Portugal numa sociedade cada vez mais solitária e individualista, com cada vez menor relacionamento social, em que desaprendemos de aprender com os outros e de ter em conta os outros.

Hoje olho para trás na minha (ainda) curta vida e espanto-me com a quantidade de pessoas que já conheci (e continuo a conhecer) em viagens de comboio, os bons momentos que me proporcionaram (muitos deles inesquecíveis) e o quanto amadureci com elas. Muitos nunca voltei a ver, mas alguns ficaram amigos para toda a vida. Com todos eles aprendi muito (muitíssimo). Sem eles, não seria hoje a Joana que sou. Sem eles, se calhar este blogue nem sequer existiria.

Ao contrário do que sucede com uma viagem numa auto-estrada, todo o tempo que demora uma viagem de comboio é tempo útil [e é, por isso, um erro crasso pensar-se que se uma viagem de comboio for mais demorada, se perde tempo em relação à opção da auto-estrada: é sempre tempo ganho]. Pode ler, escrever, trabalhar, dormir, conversar tranquilamente, jogar e até (exclusivo do comboio) levantar-se, esticar as pernas e ir até à carruagem-bar. Ou simplesmente olhar longamente pela janela, apreciando a paisagem [apreciando mesmo – coisa impossível numa auto-estrada] ou pensando. Pensando apenas, como fez durante duas semanas de férias, a olhar pela janela do comboio, o protagonista norte-americano do filme “Antes do Amanhecer” [temos cada vez menos disponibilidade para pensar]. Perdi a conta ao número de boas ideias (profissionais e não só) que tive enquanto viajava de comboio. Uma delas levou-me a uma mudança radical na minha vida profissional (para muito melhor).

Nos últimos 25 anos, tornou-se mais difícil fazer viagens de comboio pelo país (desde logo, porque há muitas zonas de Portugal onde o comboio já não chega). Mas sempre que possível, não hesite em trocar a perigosa auto-estrada (o meio mais aborrecido de viajar) pelo seguro comboio. É tempo (e qualidade de vida) que ganha na sua vida. Vale a pena, mesmo que não venha a conhecer num comboio o grande amor da sua vida.
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(montagem com algumas cenas dos minutos iniciais do filme “Antes do Amanhecer”)
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Este texto (como muitos outros deste blogue) foi redigido durante uma viagem de comboio. São apenas ideias ou tópicos para um artigo, que acabou por ser abandonado (uma vez que esta série de artigos sobre as auto-estradas já vai muito longa). Talvez um dia o venha a desenvolver. O tema merece.


*Título de uma crónica de Manuel Graça Dias publicada no jornal Expresso há meia dúzia de anos.

33 comentários:

Nuno disse...

O filme é mesmo uma ode aos transportes públicos, uma vez que andam de quase tudo- e a sequela é exclusivamente pedonal.

A propósito, esta perspectiva é algo que é sempre focado nos anúncios espantosos da "CP Norueguesa":

http://www.youtube.com/watch?v=4CKM7reNOSw

ps. Espectacular o pormenor de escrever o post num comboio.

Anónimo disse...

Uma patetice este post, a começar no titulo, a passar pela seca de filme (fiquei a saber que é um filme a evitar) e a acabar na mentira de o post foi escrito no comboio. Como se alguem acreditasse!

mj disse...

muito bom. concordo que com os comboios existe uma maior qualidade de vida e que o carro nos afasta das pessoas (assim como outros factores da actualidade que não importa referir). curiosamente, esta história das SCUT veio influenciar antagonicamente um pouco da supremacia do condutor visto que numa estrada nacional, existem passadeiras várias e próximas umas das outras. cumprimentos

Anónimo disse...

Há muito tempo, conheci uma menina num picanço na A1. Foi lindo, ela num Golf preto e eu num Clio 1.9d. Fomos os dois a 180 quase durante 200km, ora passava eu , ora passava ela.
Depois parámos numa, vejam só, bela área de serviço, bebemos um cafezinho e... Nunca mais nos vimos!
Triste...

Anónimo disse...

Deviam-se ter casado, só estragavam uma casa!

Anónimo disse...

Antes de amanhecer? Que é isso? Que raios de filmes você vai desencantar. Nem me vou dar ao trabalho de sacá-lo da net.

Anónimo disse...

...e o "Terror na Autoestrada"? com o grande Rutger Hauer - Granda movie!
Mas também gosto de filmes sobre comboios, por ex: "O Comboio dos Duros"... espera, esse é sobre camiões, não interessa; deve haver prai algum sobre comboios, agora só me ocorrem as velocidas furiosas... e, claro, o enormíssimo clássico "Mad Max I"... Ali está tudo, aquilo é que é arte - Granda movie!

Anónimo disse...

É mentira que a auto-estrada provoque isso tudo o que escreveu. É MENTIRA.

:p disse...

É mentira que é mentira que a auto-estrada provoque isso tudo. É MENTIRA QUE É MENTIRA!

Anónimo disse...

Não podemos voltar ao futebol?
Paulo Bento, caracol.e.couve?

Sem ironia disse...

Sabem o que é mesmo, mesmo romântico?
É ir a namorar numa magnífica carruagem de uma qualquer composição da linha de Sintra e depois… ser assaltado e enxovalhado por um grupo de adolescentes.
É mesmo, mesmo romântico!

Anónimo disse...

Já para não falar no romântico que é ir a ouvir kuduro a viagem toda...

Nuno disse...

"É ir a namorar numa magnífica carruagem de uma qualquer composição da linha de Sintra e depois… ser assaltado"

Carjacking é muito mais frequente e muito mais perigoso.
Vamos mesmo comparar os riscos de segurança entre andar de comboio e de carro?

Senão estou do seu lado no protesto contra a insegurança em comboios, que tanto quanto sei se restringe à Linha de Sintra.

"Já para não falar no romântico que é ir a ouvir kuduro a viagem toda..."

Prefiro o kuduro ao "ku-nu-engarrafamentu". Pessoalmente acho mais incómodo e difícil de eliminar com uns headphones.

"Há muito tempo, conheci uma menina num picanço na A1."

Como foi há muito tempo pode ser que agora seja uma das muitas meninas que se vêem nos comboios todos os dias. ^^

Anónimo disse...

Lirismos. Os comboios tugas são uma trampa. Meta-se lá nas carripanas que eu vou a voar na minha autoestrada.

Anónimo disse...

"Os comboios tugas são uma trampa." E a grande maioria dos tugas também.

Nuno disse...

"Meta-se lá nas carripanas que eu vou a voar na minha autoestrada. "

Para ir tão rápido na CREL ou na VCI como no comboio/metro de manhã e à tarde só mesmo a voar é que lá vai.
XD

é muito seguro disse...

«A circulação ferroviária na Linha do sul, entre Setúbal e Grândola, deverá continuar interrompida durante alguns dias devido ao descarrilamento de um comboio de mercadorias em Alcácer do Sal ocorrido esta terça-feira, adiantou fonte da Refer - Rede Ferroviária Nacional»

Ainda bem que era carvão e não gado humano!

Nuno disse...

"é muito seguro"

Rodovia SÓ em 2009:

738 mortos 2567 feridos graves 41327 feridos ligeiros

Comboios, desde 2000:

45 mortos (21 em passagens de nível, metade já foram extintas- deviam ser todas) 40 feridos

Acha mesmo que existem mais acidentes com comboios de carga do que com camiões? A União Europeia considera a condução de pesados como "ocupação de risco" por causa de 800 mortos (!) por ano entre a profissão.

Está mesmo a argumentar que o comboio é mais perigoso que o automóvel? Mas a sério??

Anónimo disse...

Não...
Estava a gozar com o outro :)
Sim, pode ser mais seguro estatisticamente (embora os números não são esses, têm de ser em proporção)
Dizem que o meio de transporte mais seguro por km percorrido é o avião, a seguir ao elevador, e muita gente tem pânico dos aviões e quando à um acidente morrem logo às centenas.
Além de que a segurança não é só mortos e feridos, é roubos, furtos, assédios (aqui inclui-se também o nervosismo que pode provocar aos utentes os comportamentos de outro utentes, como p ex os telemóveis wifi, praticas libidinosas – até já apanhei uma carruagem na linha de cascais que cheirava a urina).

Anónimo disse...

*há

Anónimo disse...

«já apanhei uma carruagem na linha de cascais que cheirava a urina»

Deve ter sido uma experiência muito romântica.

NitroGT disse...

É só para dizer que não tenho nada contra o povo andar de comboio, aliás até incentivo a prática fortemente… aos outros!

Miguel Cabeça disse...

Uma dificuldade que eu tenho quando converso com alguém sobre estes assuntos, é a de transmitir no tempo de uma conversa curta uma ideia que foi maturando ao longo de meses, com muita leitura e reflexão, com partilha de ideias com tempo para respirar, olhar ambos os lados da questão e voltar a pensar sobre o assunto. Não é justo que se exija ao nosso interlocutor que em 10 minutos de conversa se adapte a um pensamento de meses. E muitas vezes as ideias que tentamos transmitir soam completamente alienígenas a quem nunca pensou sobre o assunto e que é confrontado com realidades tão afastadas da sua.
O paralelismo que fazem entre o comboio e a auto-estrada com a realidade actual da substituição do público pelo privado é claro como água para mim mas poderá ser totalmente opaco para quem é introduzido ao assunto.
Como foi dito, e bem dito, o transporte privado, o condomínio fechado, o cinema em casa, as consolas de jogos, as transmissões televisivas de concertos ou eventos culturais ou desportivos, e a última representação do triunfo do privado sobre o público, o café (de cápsula) em casa, são tudo manifestações de uma ansiedade de individualismo e isolamento crescente. O problema é que o ser humano não consegue viver e ser equilibrado, e sobretudo justo com o outro, se lhe for retirado progressivamente as oportunidades de contacto e troca de ideias. Caminhamos a passos largos para esse isolamento tão desejado, porém tão nefasto à nossa própria existência como sociedade.

Sobre este assunto, alguém escreveu num outro forum uma preciosidade que transcrevo de seguida:

"Estes são tempos em que se nostalgia comunidade mas se celebra independência.
Queremos viver junto dos outros que fervilham cidades, mas sem lhes temer o espirro próximo. Ambicionamos laborar no meio duma fusão criativa, mas sem deixar de guardar as patenteadas ideias no próprio computador pessoal.

Eu quero chegar além, ao mEu espaço, quando Eu quiser, sem Me perder ou atrasar por causa dos "outros". Os "outros" que Eu gosto tanto que por cá andem, mas que não se cruzem ou entupam o meu caminho.

Agora imaginem que existem soluções mais rápidas, económicas e com benefício para todos para aumentar o número de pessoas com casa, mais cultura, menos carências... Pois, mas vivemos cada vez mais sós (os neo-castelos estão a proliferar), compramos mais dvds, consolas, ouvimos mais playlists personalizadas, assim como lemos a revista ou as noticias personalizadas por e para Mim."

Mas como dizia o outro: Lirismos. Os comboios tugas são uma trampa. Meta-se lá nas carripanas que eu vou a voar na minha autoestrada.

Nuno disse...

"Sim, pode ser mais seguro estatisticamente (embora os números não são esses, têm de ser em proporção)"

Por acaso a Stern fez essas contas para a Alemanha (que usa proporcionalmente mais o comboio e o avião do que nós), e isso circulou pela net uns tempos, não encontro referências sem ser em alemão mas o resumo é este:

Comboio: 0.2 mortos por bilião de passageiros
Carro: 6 mortos por bilião
Avião: 0.4 mortos por bilião

Mas acho que não são os comboios, elevadores (?) ou aviões os mais seguros, suponho que são os peões e/ou ciclistas, mas não por falta de tentativas dos automobilistas (e mesmo algumas passagens de nível).

A Stern fez estas contas depois de um grupo pró-comboios alemão (Allianz pro Schiene) ter sido acusado de inventar estatísticas para defender o comboio, que ficaram famosas. Os jornalistas da revista tiveram resultados muito diferentes mas a mesma conclusão: o comboio é mais seguro, mas não pela margem que tinham dito os outros.
Como não uso o elevador ou o avião para ir trabalhar no que diz respeito à segurança estou esclarecido.

"Além de que a segurança não é só mortos e feridos, é roubos, furtos, assédios"

Concordo, mas só para perceber melhor: não existem roubos de e a carros e assédios de outros automobilistas? Nunca se irritou ou foi provocado por outros utentes na estrada? Tomara eu!

ps. Ao anónimo que, como eu, gosta de Mad Max ou filmes com o Rutger Hauer (estou ansioso pelo Hobo With a Shotgun): deu-me uma excelente ideia, acho que vou ver o Thunderdome amanhã...no comboio.

SRT disse...

O tema deste post é realmente muito interessante e tenho pena que não tenha sido desenvolvido. Mesmo assim está muito bom, parabéns. Em jeito de provocação, eu acrescentaria o Facebook, apesar de todas as vantagens que tem.

Paulo disse...

Lindo, Joana. Uma poema em prosa.
Quanto aos egoísmos faltou referir (referiu o Miguel Cabeça) os condomínios fechados. Criam uma falsa sensação de segurança em quem lá vive e são uma forma inadequada de "fazer" cidade.
Quanto as pessoas que discordam porque não o fazem numa atitude mais positiva e fundamentada?

Paulo Fonseca

Apolo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Apolo disse...

Estive a ver as cenas do filme seleccionadas pelas meninas.
Observações:
- «Tens alguma ideia do que eles estão a discutir?» Que raio de linha de engate é essa? Isto funciona? Vou experimentar na próxima vez que for ao mercado do Funchal…
- «Esta viagem pela Europa é positiva?»
A resposta: «It sucks!»… Nem mais!
- «Uma pessoa tem ideias (no comboio) que normalmente não tem»;
- «Como por ex»…
A Joana decidiu cortar essa parte. As ideias que se têm a andar de comboio são tão boas que as temos que esconder! A mim acontece-me nas casas de banho das áreas de serviço (portuguesas) e também não as partilho.
Entretanto deixei de ver o resto (admito que saltei varias partes); portanto não vi a cena em que os outros passageiros se transformaram em zombies…
Vou esperar, ansiosamente, pela versão Blu Ray

Anónimo disse...

"Além de que a segurança não é só mortos e feridos, é roubos, furtos, assédios (aqui inclui-se também o nervosismo que pode provocar aos utentes os comportamentos de outro utentes, como p ex os telemóveis wifi, praticas libidinosas – até já apanhei uma carruagem na linha de cascais que cheirava a urina). "


Essas coisas podem ser todas muito chatas, mas se o caríssimo prefere morrer a apanhar um bocado de mau cheiro de vez em quando então é lá consigo.

Anónimo disse...

Sobre a segurança: morrem mais pessoas na estrada em 8 meses em Portugal, do que nos morreram nos 154 anos de história do caminho-de-ferro.

Apolo disse...

Não falo com anónimos, pá!

Anónimo disse...

Foi este o comentário que vos melindrou e levou a activar novamente a moderação, não foi?
E eu sei pq! Pq as meninas, de vez em quando, gostam de comentar como anónimas...
;)
Ah pois é! Meninas orgulhosas!
Olha que a ira, além de pecado mortal, afecta o discernimento!

Anónimo disse...

Apolo, mas alguem falou pra ti?