Os campeões das auto-estradas (5)

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(continuação) (clique aqui para ler a primeira parte; a segunda parte; a terceira parte; e a quarta parte)


Como decorre do que atrás ficou dito a propósito de cada um dos três fatores de ponderação considerados (área, população e riqueza), qualquer deles, isoladamente considerado, é insatisfatório. Por exemplo, a Holanda surge como o país da União Europeia com mais auto-estradas por km2 de território, mas esta posição é, em grande parte, explicada pelo facto de ser um país muito populoso - tem a maior densidade populacional da UE – e ainda pelo facto de ser um dos países mais ricos da União. O Luxemburgo surge em terceiro lugar segundo os critérios da população e da área, mas é penúltimo entre os 27 na ordenação feita segundo a riqueza de cada país: é o país mais rico da União Europeia.

O ideal seria, por isso, reunir numa mesma classificação estes três fatores de ponderação. Foi o que A Nossa Terrinha fez, de uma forma um pouco grosseira: somámos as posições de cada país nas tabelas referentes aos três critérios mencionados e ordenámos os 27 países de acordo com os resultados obtidos:
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Países da União Europeia com mais quilómetros de auto-estrada, ponderadas a área, a população e a riqueza produzida (2008).


Entre os dez países da União Europeia com mais auto-estradas aparecem, sem surpresa, alguns dos países mais ricos: Eslovénia e Portugal são as únicas exceções. Portugal é, aliás, o país mais pobre nestes dez primeiros. E o nosso país está mesmo à beira de «conquistar» o 1.º lugar: os 490 km de auto-estradas presentemente em construção (422 km) e adjudicação (68 km) são suficientes para destronar a Espanha do 1.º lugar.

Se tivéssemos utilizado, no terceiro fator de ponderação, o indicador PIB em valores absolutos (e não per capita) - como fez há dois anos o economista Avelino de Jesus -, Portugal surgiria já hoje, nesta classificação ponderada, à frente de todos os outros países da União Europeia.


Quando se procura saber quais os países da União Europeia com mais auto-estradas, esta tabela apresenta, pelos motivos já explicados, resultados mais aproximados da realidade do que qualquer das quatro tabelas anteriores (1 - quilómetros de auto-estrada, 2 - quilómetros de auto-estrada por área, 3 - quilómetros de auto-estrada por habitante e 4 - quilómetros de auto-estrada por riqueza do país).

Deve, no entanto, ter-se presente que são resultados muito limitados e que está longe de ser uma tabela que retrate rigorosamente a realidade.

De resto, os três critérios utilizados são apenas três dos fatores relevantes - embora sejam, provavelmente, os mais importantes: há outros fatores que pesam, mas que seriam dificilmente mensuráveis, de forma a reduzi-los a números com base nos quais se pudessem construir outras tabelas. Por exemplo, o relevo de cada país (fator com muito menor relevância, diga-se), a configuração geométrica, a situação geográfica ou o tipo de povoamento (concentrado ou disperso) são fatores que não devem deixar de ser tidos em conta [ver adiante nesta série].

Entre os fatores que por vezes são referidos encontra-se o índice "quilómetros de auto-estrada / quilómetros da rede viária". Avelino de Jesus concluiu, há dois anos, que em 2006 as auto-estradas portuguesas correspondiam a 2,3% da rede viária total do país, e que na União Europeia só a Espanha e o Luxemburgo estavam à nossa frente.

Os números relativos à totalidade da rede viária de cada país não são, no entanto, muito rigorosos, pelo menos no que diz respeito a parte dos países da União, face à dificuldade de apurar a extensão exata da rede secundária [nem em Portugal se sabe em termos exatos qual a extensão da rede viária total: sabemos apenas que ela tem hoje aproximadamente 100 mil quilómetros, excluindo as auto-estradas; mais de 3 mil quilómetros da rede não têm "dono" conhecido]. Em relação a alguns países da UE, os números não são sequer conhecidos (ou divulgados).

Por outro lado, esse critério não constitui um bom indicador para ajudar a apurar quais os países da União com mais auto-estradas: a extensão da rede viária secundária (que, em Portugal, inclui, por exemplo, as estradas e os caminhos municipais) depende muito mais do tipo de povoamento, tornando a comparação menos interessante.

Mais interessante é apurar a percentagem das auto-estradas na rede principal (que, em Portugal, inclui, nomeadamente, os IP, os IC e algumas estradas nacionais) – por outras palavras, apurar qual a parcela da rede viária principal de cada país que tem "perfil de auto-estrada". Os dez países com maior percentagem de auto-estradas são os seguintes:
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Percentagem de auto-estradas relativamente à totalidade da rede viária principal (2008).


Mais uma vez, a tabela é dominada pelos países ricos, mais uma vez as únicas exceções são Eslovénia e Portugal (o nosso país tem praticamente um terço da rede principal em auto-estrada) e mais uma vez Portugal é o país mais pobre entre os dez primeiros. Por curiosidade, regista-se o 12.º lugar da Bélgica (com apenas 12,2%), o 13.º lugar da Suécia (com 12 %), o 16.º lugar da Irlanda (com 10,4%), o 20.º lugar do Reino Unido (com apenas 6,7%) e o 21.º lugar da Finlândia (com 5,5%), que não deixam de impressionar face aos 31,4% de Portugal.


Ainda que possam não retratar com rigor a realidade, estas tabelas dão uma ideia aproximada dessa realidade. Elas mostram inequivocamente que Portugal está nos lugares de topo da União Europeia no que diz respeito à rede de auto-estradas.

No entanto, se é certo que estas tabelas revelam que Portugal surge classificado em posições que não são “normais” face à sua dimensão, população, riqueza e dimensão da sua rede viária principal, elas não nos dizem se isso é positivo ou negativo.

Por outras palavras, estes números serão motivo para nos orgulharmos ou para nos envergonharmos?

É sobre esta questão que nos vamos debruçar a seguir, depois de darmos uma rápida vista de olhos a duas situações particulares.

(continua)


Joana Ortigão


Artigos relacionados:
Os campeões das auto-estradas (1)
Os campeões das auto-estradas (2)
Os campeões das auto-estradas (3)
Os campeões das auto-estradas (4)
Os campeões das auto-estradas: Adenda 1 - Os novos países da UE
Os campeões das auto-estradas: Adenda 2 - O caso da Noruega

Fontes:
- a tabela relativa à rede viária principal foi feita a partir de dados do Eurostat
- artigo do economista Avelino de Jesus “O caso das auto-estradas portuguesas: a evidência do excesso de vias

10 comentários:

Anónimo disse...

Já percebi: isto não passa de mais uma disputa ibérica.

Anónimo disse...

Vejo que fugiram aos clichés habituais das ferrovias e tudo o mais e ainda bem, porque o comboio hoje só interessa a uma minoria e POrtugal não se pode dar ao luxo de satisfazer os caprichos das minorias. Excepção claro para as areas urbanas em que o comboio é indispensável para as classes com menos posses.
Se é positivo ou negativo? Claro que é positivo, tem alguma duvida? Até custa a perceber a pergunta. Então ter boas estradas alguma vez podia ser mau! Você se calhar é muito jovem e inexperiente e não sabe o que demorava ir do Porto ao Algarve nas estradinhas que nós tinhamos.

Anónimo disse...

Eu não concordo nada com este último comentário sobre o combóio, mas também acho que é preciso parar com esta mania portuguesa de dizer mal de tudo, mesmo do que temos de bom. Que povo mais bota abaixo! De certeza que somos motivos de elogios no estrangeiro pelas auto-estradas que temos! Temos de realizar isso. Já é alto tempo de encarar as coisas de outra maneira mais positiva!

Pode lá ser disse...

«...para as classes com menos posses»????
Mas esta gente existe mesmo?

Faz-me lembrar um outro imbecil, um comerciante, que se queixava há dias na SIC da falta de estacionamento como causa do decréscimo do comércio na Baixa pombalina; quando a razão pela qual as pessoas não vão passear mais para baixa é exactamente o excesso de trânsito (quem consegue andar naqueles passeios apertados, sem ir para a estrada e ficar sujeito a ser atropelado?); acabem com o trânsito automóvel na Baixa e vão ver o aumento do pedonal.

Anónimo disse...

Estava a espera que isto desenvolvesse um bocado, mais vai-se haver e a única coisa que fizeram foi escarrapachar aqui uns números e já está. Para isso também eu. Ponho uns numeros, digo umas larachas e prontos. Andei aqui a perder o meu precioso tempo.

Anónimo disse...

"De certeza que somos motivos de elogios no estrangeiro pelas auto-estradas que temos!"

Então não somos! Por exemplo as agências de rating adoram-nos por cause do dinheiro que estouramos em auto-estradas. E as pessoas a quem andamos a pagar 6% de juros também.
Quando o IVA voltar a subir em Janeiro para pagar mais estradas sem tráfego que as justifique não se venham queixar.

JT disse...

"Excepção claro para as areas urbanas em que o comboio é indispensável para as classes com menos posses."

"De certeza que somos motivos de elogios no estrangeiro pelas auto-estradas que temos! "

Dois tiros dois pássaros...acho que isto ainda não vai lá nesta geração..que tristeza ver tanto novo riquismo em qualquer direcção para onde se olhe....

Anónimo disse...

"Quando o IVA voltar a subir em Janeiro para pagar mais estradas sem tráfego que as justifique não se venham queixar. "


E quando o gasóleo tiver a 3€ o litro (em menos de 10 anos lá estará), o anónimo também irá rejubilar com tanta auto-estrada moderna e sem gente que a consiga usar.

MC disse...

Joana,
parabéns por esta série de artigos!
Como maluquinho das estatísticas ia recomendar os km de AEs pelos kms de estradas quando comecei a ler os artigos, mas já vi que tivemos a mesma ideia.

Outros rankings que eu pensei:

km de AE por km de ferrovia (ficamos em terceiro)
http://menos1carro.blogs.sapo.pt/76381.html


qual é a maior cidade do país sem AE (por outras palavras, a partir de tamanho de uma cidade é que o país acha indispensável que as cidades tenham AE)
ficamos em segundo!
http://menos1carro.blogs.sapo.pt/102191.html

somos uns campeões

João Pimentel Ferreira disse...

Essa tabela que une os vários rankings é pouco rigorosa.

Tem aqui o que pretender achar, ou seja, uma tabela com as autoestradas em 2010 nos países da UE, em número de km por milhão de habitantes por raiz cúbica de km² de área, segundo o Eurostat

http://www.veraveritas.eu/2013/08/autoestradas-na-europa-por-habitante-e.html