O lugar no passeio

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Num destes fins-de-semana, fui almoçar a casa de uns amigos recém-casados, numa cidade algures a umas dezenas de quilómetros de Lisboa. Como não era fácil dar com a rua onde eles viviam, combinámos um ponto de encontro para que eles fossem à frente, no seu carro, a indicar-me o caminho. Ao chegarmos à dita rua, os meus amigos puseram o carro no passeio, sem sequer procurarem antes um lugar livre. Como não encontrei nenhum lugar para estacionar nessa rua, fui procurar um. Demorei uns 30 segundos a encontrar um lugar, numa rua perpendicular àquela, onde havia muitos lugares livres (e gratuitos). Estava a uns 100 ou 150 metros do sítio onde os meus amigos estacionaram. Pouco mais de um minuto a pé.
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Quando cheguei ao pé dos meus amigos, estes disseram-me: "então Joana, tinhas ali um lugar!!". Fiz-me desentendida: "Ah, não reparei! Onde?". Apontaram para o dito "lugar", que, claro, não era nenhum lugar de estacionamento, mas sim um espaço livre no passeio. O único que restava. "Mas aquilo não é um lugar, é o passeio!", respondi eu. "Aqui toda a gente estaciona no passeio, Joana". Fingi que não ouvi e eles insistiram: "sabes, aqui toda a gente estaciona no passeio. É normal. Podias ter posto também". Como nos conhecemos há muito tempo e tenho muito à vontade com eles, lá tiveram de me ouvir: tentei explicar-lhes que nunca deixo o carro no passeio, nem que tenha de andar um quilómetro a pé [nesta parte já estavam a olhar para mim de olhos esbugalhados], que os passeios não são para os carros, mas para as pessoas, que os carros danificam os passeios, que não se devem "atirar" as crianças, os carrinhos de bebé, os idosos, os inválidos e os peões em geral para o asfalto, etc., mas não valeu de nada.
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Enquanto me mostravam, orgulhosos, a sua bonita nova casa, os meus amigos, junto a uma janela das traseiras, apontaram para fora e disseram: "ali são as garagens do prédio. Aqui os prédios têm garagens. Para todos. São garagens enormes, cada uma leva à vontade dois carros!". Foi a minha vez de ficar com os olhos esbugalhados. "Então e vocês não a utilizam?", perguntei eu, a ver que resposta viria ali. "Utilizamos, às vezes, quando não há lugar na rua". "Quando não há lugar no passeio, querem vocês dizer!". E lá tiveram de me ouvir mais um pouco.
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São pessoas de quem gosto muito. São cultos, inteligentes e ambos têm um grau de instrução muito acima da média (têm mestrado e um deles está já a preparar o doutoramento).
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Há muito que me venho apercebendo de que a triste realidade dos automóveis em cima dos passeios não se restringe a Lisboa, Porto e arredores. Chegámos a um ponto em que em quase todo o país passou a ser "normal" estacionar no "lugar" em cima do passeio, perante a inacreditável indiferença das autoridades.
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Há meses que o Passeio Livre vem "lutando" contra este estado de coisas. Até ao dia em que estacionar no passeio deixe de ser "normal", depende de todos nós acabar com este absurdo.
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E enquanto cá na nossa terrinha não conseguimos andar 100 metros a pé, numa estação de metro de Estocolmo experimentou-se, com êxito, uma forma curiosa de convencer as pessoas a utilizar as escadas em vez das escadas rolantes.
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21 comentários:

César disse...

Ridículo, mas tão comum.

"Estacionar em cima do passeio é tão natural com a sua sede" [por água] :)
Excelente blog.
Cumprimentos,

Edgar Madureira disse...

Eu apesar de ser um leitor e colador de autocolantes do passeio livre, acho que o combate ao estacionamento em cima do passeio é uma causa perdida, enquanto não forem as autoridades a actuar.
O Portugues só muda os habitos quando lhe doi na carteira.

apesar do meu desanimo não deixo de lutar para defender o meu direito a andar no passeio

Anónimo disse...

Uma das maneiras de resolver isto seria atulhar os passeios de merda até nada mais sobrar além da estrada. Nessa altura todos terão de andar no asfalto - incluindo os condutores de ocasião que, mais cedo ou mais tarde, terão de passar a ser peões. Pode ser que depois entendam.

madeinlisboa disse...

Por mais culta e inteligente que alguém seja, o comodismo suplanta isso. Falta civismo e respeito em Portugal, com a permissibilidade da suposta autoridade

Madalena disse...

Quando "apanho" o meu pai a estacionar no passeio também não me calo. Nem que seja só para não me ouvir, um dia há de passar a estacionar sem incomodar os outros!

Gonças disse...

A minha mulher está-me sempre a ouvir. Ela é a única que tem carro e já vai tendo o cuidado de não estacionar no passeio. Mas o que mais acho piada é quando os carros estão parados em segunda fila!! Aí é que ela entra em parafuso! Noutro dia comentou: "Não sei como alguém estaciona aqui (2ª fila) durante a noite e dorme descansado", ao que lhe respondi: "e o pessoal que estaciona no passeio e consegue ter a consciência leve?"...

Joana disse...

Estes meus amigos não foram só massacrados naquela tarde (rica convidada!). Desde então, tenho-lhes enviado mensagens com ligações para algumas páginas do Passeio Livre onde o problema tem sido mais bem discutido. Se entretanto não me tiverem posto na lista de "correio publicitário não solicitado", a última mensagem que lhes enviei já incluiu uma ligação para este post...

JT disse...

Uff Joana, isso é que é coragem. Sofro de um problema paracido desde que voltei a Lisboa. Os meus amigos estão contentíssimos com os seus apartamentos novos "pertíssimo da autoestrada" e adoram conversar sobre as suas opções estratégicas para serem super rápidos a chegar ao trabalho. Quando lhes conto que uso os transportes apesar de isso significar 30 minutos em vez de 15m de carro, ou quando chego de transportes nas saidas à noite, ou quando insisto em por o carro no parque em vez de andar uma hora à procura de estacionamento no bairro alto, reçebo uns olhares do tipo "está a tornar-se num radical". Ainda bem que tens bons amigos, eu começo a ficar preocupado porque entre as conversar de "nos outros países fazem assim" e "a culpa é do comodismo", começo a ter medo de que os meus percam a paciência para mim.
Animo
JT

Isabel disse...

Um bocado envergonhados, mas cá estamos. A Joana não só é a pessoa mais frontal que conhecemos, como não há dúvida que é persistente! E neste caso a persistencia deu resultado. A Joana e os comentários no blog Passeio Livre conseguiram convencer-nos. Passámos a pôr o carro todos os dias na garagem! É verdade que já deixávamos o carro no passeio sem nos questionarmos. O que é que podemos dizer mais? Sentimo-nos envergonhados! Temos sorte em termos uma amiga como a Joaninha!
P.S. O teu blog é muito bom!
Isabel e Pedro

António C. disse...

Sim, eu também sou um entusiasta do blogue passeio livre e fico muito contente por ver "convertidos". Eu próprio estacionava em cima do passeio com naturalidade nos meus primeiros anos de carta até ter sido chamado à atenção por uma amiga. (Não era a Joana).

Por outro lado, acho que os amigos com quem discuto isto, acho que também já pensam 2 vezes e aí por adiante... as coisas vão mudando. Cada um de nós tem influência sobre os outros e pelo menos o Passeio Livre já trouxe o debate a muitas famílias.

Continuação de bom blog!

Paulo disse...

Viva.

Pois, às vezes as pessoas têm uma grande formação académica e uma fraca cultura cívica ou então deixam-se vencer pelo comodismo e pensam se os outros fazem porque não fazer o mesmo. Não pode facilitar! Mas também não quero estar aqui a armar-me em bom. Também já falhei algumas vezes e depois fico aborrecido comigo. Ou seja a luta por uma boa cultura cívica nunca é um processo acabado!

Paulo

Joana disse...

Pedro e Isabel, que boa notícia! Já foram 5 as pessoas que consegui convencer a deixar de estacionar no passeio e nas passadeiras! Com a preciosa ajuda de links para o Passeio Livre, claro. (continuo via mail)
Joana

Anónimo disse...

Adorei o Post e sem duvida adorei o resultado, como se pode verificar pelos comentários da Isabel e do Pedro :D

infelizmente ainda esxistem muitas Isas e Pedros por este Portugal fora... espero que com consciência para mudar.

Madalena disse...

Pois eu não consigo convencer o meu pai. Chateio, chateio, mas nada. Estou a pensar contratar a Joana...

Joana disse...

Madalena, às vezes é mesmo muito difícil.
Por exemplo, ainda não consegui convencer 6 ou 7 lisboetas que todos os dias se deslocam, de automóvel, entre dois pontos da cidade servidos por estações de metro. Por exemplo, um deles vive junto ao metro do Campo Grande e vai todos os dias para a Cidade Universitária, volta a casa para almoçar e regressa depois de almoço à Cidade Universitária... - 4 deslocações diárias de automóvel. De metro, é uma estação. A pé, nem 10 minutos são...
Teoricamente, deveria ser muito fácil convencer estas pessoas... [brevemente, vou voltar ao "ataque", desta vez munida de ligações para alguns posts do blogue Menos1Carro...].

Depois, não faço com toda a gente o que fiz com estes meus dois amigos. Tenho muito à vontade com eles e tinha a certeza absoluta de que não iam levar a mal o "massacre" e esta exposição ("exposição" entre aspas, porque neste post não revelei o nome deles, nem a cidade onde vivem). Com algumas outras pessoas, tento ser convincente, mas sou mais comedida... (e isto também é uma resposta ao JT).

Ao Paulo (3/11, 19:04h): muitos de nós que tentam remar contra a maré também já tiveram o hábito de estacionar no passeio. Como disse aqui a Isabel, há muita gente que estaciona no passeio sem sequer se questionar. O facto de o estacionamento abusivo se ter generalizado e tornado banal induz este tipo de atitude, como algo que é perfeitamente "normal". Pois se toda a gente o faz...

O caso da Isabel e do Pedro é caricato, mas há muitos outros assim. E por favor não os insultem, porque são um excelente exemplo de pessoas que pararam um bocadinho para pensar e mudaram o seu comportamento para não prejudicar os outros. E em muito pouco tempo!

Isabel disse...

A favor da Joana: não foi arrogante, não se dirigiu a nós como se nos quisesse dar lições, ou como se nos estivesse a julgar, pode-se dizer simplesmente que apenas nos tentou abrir os olhos. Não é fácil. Por isso, Madalena, a contratação da Joana é uma boa ideia... Não nos convenceu logo a 100%, mas foi uma questão de dias!
Não nos limitámos a passar a estacionar na garagem. O nosso desafio foi e é não voltar a estacionar no passeio, seja onde for e nem que tenhamos de "andar um quilómetro a pé", como nos disse a Joana. Realmente, um quilómetro parece muito mas é um instante. E já começámos a perceber que nunca é um quilómetro, é sempre muito menos do que isso, mesmo em Lisboa.
Na nossa rua, nada mudou, claro. O "lugar" a mais no passeio passou a ser ocupado por outros. O incrível é que passámos a olhar para as pessoas a estacionar no passeio com um espírito de reprovação, como se nós não tivéssemos feito o mesmo até há uns dias atrás!...
Aqui fica o merecido elogio público da Joana e, já agora o elogio deste post, que está espectacular! Apesar da minha vergonha sempre que o leio...

Joana disse...

"Não nos limitámos a passar a estacionar na garagem. O nosso desafio foi e é não voltar a estacionar no passeio, seja onde for e nem que tenhamos de "andar um quilómetro a pé", como nos disse a Joana".

BOA! Esse era o meu passo seguinte, mas já vi que não é preciso. Parabéns, Isabel!

Edgar Madureira disse...

Parabéns

tanto a Joana que conseguiu convencer mais 2 pessoas a não estacionar no passeio.

como ao Pedro e a Isabel que tomaram consciência do erro que faziam ao estacionar no passeio, agora só falta começarem a convencer os vossos amigos dos malefícios de estacionar no passeio :P

Icarus Solace disse...

Sugiro uma accao de 5 minutos, durante um dia da semana...nesses 5 minutos os peoes comecariam todos a circular pela estrada!! Talvez desta forma os automobilistas entendam que a estrada e para os carros e o passeio para os peoes.
Como todas as accoes nem todos os atingidos sao prevaricadores, mas o que conta e a chamada de atencao.

Susana Nunes disse...

Excelente post, realmente é preciso frontalidade! Pouco a pouco as coisas vão mudando, seja através das conversas entre amigos, dos autocolantes Passeio Livre, das multas ou, no pior do caso, dos pequenos postes que parecem surgir por todo o lado. Têm um nome específico, de que não me recordo neste momento, e o Nós por cá (SIC), divulgou uma interessante reportagem sobre o fenómeno na semana passada... Digo na pior das hipóteses porque, claro, não deixam de ser obstáculos também para os peões e acabam por ser pagos com o dinheiro de todos, mesmo aqueles que nunca estacionam em cima dos passeios...

Madalena disse...

Acho que ainda não tinha dito aqui e agora lembrei-me ao ver no Facebook a ligação para este post: consegui finalmente convencer o meu pai a deixar de estacionar no passeio. Não pedi à Joana para o convencer, mas este blog ajudou-o a abrir os olhos. Ou então foi para não me ouvir mais: fui tão chatinha...
Madalena Nogueira