A mobilidade na Grande Lisboa, segundo o ACP


"Lisboa é uma cidade citiada. Uma rede de portagens em seu redor, entre os 12 e os 15 kms, só permite entrar através do IC19 e do IC2, sem pagar. Para quem reside na margem Sul ou em concelhos onde os transportes alternativos são também eles, rodoviários, o recurso ao automóvel torna mais curto o orçamento familiar, mas acaba por ser a única solução, pelo que representa em termos de facilidade na mobilidade e ainda de conforto e garantia (nem sempre confirmada) de poder estar a horas no destino. As portagens impõem-nos o princípio do utilizador-pagador mas, numa região como a Área Metropolitana de Lisboa, há muito de injusto na sua aplicação, pelas diferenças sociais que cava em relação aos seus destinatários, as mais das vezes obrigados a morar longe da capital, onde trabalham, porque os orçamentos familiares a isso obrigam. E quando se fala em portagens para Lisboa é bom ter em linha de conta o que tem vindo a acontecer em cidades como Londres e Estocolmo que, de acordo com o Eurocouncil*, acabaram por não ter sucesso e são hoje fonte de preocupações".

Carlos Morgado, Editorial da Revista do ACP - Automóvel Clube de Portugal, Novembro de 2009

*O Eurocouncil é um órgão da federação internacional dos clubes de automobilistas (FIA)...

A mesma revista traz um artigo sobre este tema, que é, todo ele, uma preciosidade, e onde se podem ler coisas como:

"Como é sabido, a A5 é a melhor solução para quem reside na Linha de Cascais, daí que nela se registem engarrafamentos muito intensos nas principais horas de ponta, quer de manhã, quer ao final do dia".

"A solução metropolitano já chegou a Amadora e a Odivelas, ficando o restante dos concelhos servido apenas pelo transporte rodoviário que se encontra naturalmente condicionado pela dificuldade, na maioria dos casos, de percursos morosos e difíceis, obrigando a deslocações complicadas para os utentes. Estão neste caso praticamente a totalidade dos concelhos de Mafra, Loures, Vila Franca de Xira, Odivelas e mesmo Cascais e Oeiras, na margem Norte do Tejo, enquanto na Margem Sul são praticamente todos eles afectados por estes condicionalismos de transporte (excepção feita, eventualmente, a Almada, que dispõe de rede de metro de superfície)".

Nota: todos os dias entram centenas de milhares de automóveis em Lisboa.

O Presidente do ACP foi eleito para o "pelouro" da Mobilidade e do Turismo na Federação Internacional do Automóvel, para os próximos quatro anos, o que, segundo o ACP, é uma eleição "que vem reconhecer o trabalho feito pelo Clube no que diz respeito à Mobilidade das pessoas em Portugal"...

O ACP tem mais de 210 000 sócios.

11 comentários:

madeinlisboa disse...

Esse senhor é uma diarreia mental. Não admira que tenha sido eleito, pois os verdadeiros interessos são outros e não a mobilidade.
Procurem no Passeio Livre artigos sobre ele e verifiquem o verdadeiro "defensor" da mobilidade que ele é.
Já perdi a fé neste país. A m***a abunda por todo o lado e cada vez é mais e maior.

Miguel disse...

E em Londres as portagens foram um falhanço tão grande que só trouxeram 331 milhões de libras de poupanças (incluindo para os automobilistas!): http://freakonomics.blogs.nytimes.com/2009/10/13/cordon-blues/
Realmente há pessoas que só dizem barbaridades...

TMC disse...

Muitos dos sócios do ACP não se revêm na excelsa figura do seu presidente. Esperomos que um dia ele não se ache na vaidade de ter pretensões a partido político.

Dario Silva disse...

"Como é sabido, a A5 é a melhor solução para quem reside na Linha de Cascais (...)"

De mestre!… a melhor solução para quem reside junto à LINHA (a linha de Cascais!) é uma auto-estrada!!!!

Tempos modernos!!

Ana disse...

TMC: eu sei e eu sou uma das pessoas sócias que não se revêm nas posições do ACP. Não é só do presidente, é do ACP, que todos os meses reflecte este tipo de posições na revista. Este editorial nem sequer é do Carlos Barbosa, é do Carlos Morgado.
A referência aos "mais de 210 000 sócios" destinou-se a salientar o universo das pessoas que recebem esta revista e que podem ser influenciadas pelo que aqui se diz.

Miguel Cabeça disse...

Se somarmos os valores obtidos pelos senhores do Altivo Clube dos Popós (ACP) e o juntarmos às rendas pagas na periferia, será que não fica ela por ela com as rendas pagas na capital?

É claro que pelo mesmo valor não se terá uma casa nova, com garagem e elevador. Mas também não se sujeitará às irritações matinais e constante imprevisibilidade da hora de chegada ao emprego.

Mas na periferia temos os mega-fóruns com as lojas porreiras e os cinemas pipoca. Por outro lado na cidade temos outras salas de espetáculo (teatros, concertos) mais perto.

Mas na periferia estamos mais perto das praias e do campo ao fim de semana (têm é muitos carros...). Por outro lado na cidade podemos ir de bicicleta até Belém, apanhar o barco para a Trafaria e fazer passeios bem mais agradáveis até à praia.

Na periferia estamos agarrados ao automóvel para ir a todo o lado porque os transportes são maus. Por outro lado, na cidade, os transportes já são melhorzinhos (os novos autocarros da carris são um luxo!) e podemos começar a pensar em reverter esta nossa dependência (muitas vezes nem sequer pensada) do automóvel.

Escolhas, escolhas...

Cumprimentos

Miguel Cabeça

Ana disse...

Dário Silva, "linha de..." é frequentemente utlizada, na zona de Lisboa, não para designar a linha férrea, mas no sentido de "eixo", de "zona": a Linha de Cascais (povoações de Algés, Oeiras, Carcavelos...), a Linha de Sintra (Amadora, Queluz, Cacém...), a Linha de Loures (Odivelas, Loures, Santo António dos Cavaleiros...), etc.

Seja como for, é óbvio que tens toda a razão. E não é só Cascais e Oeiras. Dos outros concelhos citados, Odivelas tem metro; Vila Franca de Xira tem comboio; a margem Sul tem comboio e barco; o ACP calcula as portagens desde o Carregado, que tem comboio; desde Vila Franca de Xira, que tem comboio; desde Setúbal, que tem comboio; a quem mora no eixo Alverca-Vila Franca, aconselha-se o IC2, que não tem portagens (eixo esse que é servido pelo comboio); fala-se do Cacém, de Massamá, de Queluz, da Amadora, como se nestas povoações não passasse o comboio da Linha de Sintra; fala-se nas "coitadas" das milhares de pessoas que escolheram morar a 60 km de Lisboa, em Torres Vedras, ou na Ericeira, para "desfrutar do mar mais azul", como se não tivessem tido outra solução...

Tudo isto é de um estreiteza de visão inacreditável e de uma cegueira que custa a entender...

E já que publicaram um artigo sobre este tema, não se percebe muito bem porque não versaram também sobre o Porto, que também é uma "cidade sitiada"...

César disse...

Inscrevi-me no ACP por causa de (supostas) melhores condições de seguro automóvel para um futuro-clássico (carro com mais de 15 anos com interesse para carro de colecção). Sim, eu também gosto de carros! :D
O aumento substancial da jóia logo no 2º ano, mais as declarações do Sr. Barbosa, foram suficientes para desistir. Hoje acho que esse Sr. é um dos grandes cegos da nossa sociedade carro-dependente.

Como disse o Santana Lopes na campanha para a CML, coitadas da famílias pobres que têm que andar de carro... Pobres, sim, muito pobres, mas de espírito.

César disse...

Encontrei isto, que está muito relacionado com o ACP/Barbosa... mas ao contrário!

A partnership of the Royal Automotive Club of Victoria (RACV) and Alta Bicycle Share was named the winner of a Victoria, Australia contract to provide bike-sharing service in central Melbourne with Montreal’s Bixi system. The program will offer 600 bikes at 50 stations, which will be spaced every 500m. The contract is valued at $4.7M USD ($5M AUD) and is planned to launch in mid-2010.

“[For one] hundred years we were advocating for the rights of cars; now we are advocating for the rights of bike riders,” said RACV’s General Manager for Membership and Motoring Services, Gordon Oakley, as quoted on the Bicycle Victoria website.

Post completo em:
http://bike-sharing.blogspot.com/2009/11/melbourne-bixi-melbixi.html

Ana disse...

Pois... são diferenças... Por cá, o ACP acha que defender o automobilista é necessariamente promover a utilização do automóvel e combater todas as iniciativas que visem a promoção da mobilidade alternativa. São incapazes de compreender, não vale a pena...

Joana disse...

Eu diria que pensam no automóvel como se fosse uma pessoa, e não na pessoa que é dona do automóvel...