Um passeio na 24 de Julho

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Hoje vou percorrer a pé a Avenida 24 de Julho, em Lisboa, partindo do Cais do Sodré. Trata-se de uma das avenidas mais largas de Portugal e é bastante frequentada, de dia e à noite: uma daquelas avenidas em que se espera um passeio com uma largura minimamente decente.

Ainda estou a percorrer os primeiros metros da avenida, em plena tentativa de preparação mental para o caminho que me espera, quando olho para a direita e deparo com uma original rua-parque-de-estacionamento:
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Sobrou um espacinho. Ser-se magrinho, como o senhor da imagem seguinte, pode ser uma grande vantagem para quem queira andar a pé em Lisboa:
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Lá se foi a preparação mental. O melhor é desviar os olhos das ruas e avenidas laterais e concentrar-me no meu percurso.

No início da artéria, o passeio até nem seria – para os padrões portugueses, e abstraindo da largura da avenida – estreito, não fossem os inúmeros obstáculos que reduzem bastante a sua largura útil:
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As setas mostram como se encontra desalinhado o mobiliário urbano. É um incómodo para um peão sem problemas de mobilidade; é terrível para um cego ou para quem ande em cadeira de rodas.

[Cadeira de rodas? Conseguirá alguém percorrer esta avenida de cadeira de rodas?]

E, no entanto, a falta de espaço não é propriamente um problema: a avenida tem um número obsceno de vias de trânsito, incluindo muito espaço para estacionamento automóvel.
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Neste local, o passeio alargou ao longo de uns escassos metros - o suficiente para ser logo invadido por carros de chicos espertos que não querem pagar o (abundante) estacionamento legal existente ao lado. Alguns adolescentes contornam os obstáculos de lata pelo asfalto.

Logo a seguir, a largura útil de passeio volta a diminuir.
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Estou já em Santos. Apesar desta quantidade absurda de automóveis estacionados...
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...aparentemente, “não havia espaço” para alargar este passeio.

O passeio é estreito. Para agravar, ainda leva com mobiliário urbano em cima, colocado desordenadamente.

Como é que uma cadeira de rodas passa aqui?

Pergunta tonta. Não passa.
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[Continua a ser um exercício recomendável comparar a largura do passeio com a largura da avenida.]

Ao lado do rio de automóveis, o passeio, aqui...
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...dá para duas pessoas (sem sacos, sem malas, sem guarda-chuvas...) se cruzarem à vontade em sentidos opostos sem terem de se desviar, e apenas isso (basta desviarmo-nos dos sinais de trânsito e de alguns outros obstáculos colocados quase a meio do passeio).

Um pouco mais à frente – e agora tento abstrair desta quantidade estúpida de carros estacionados numa avenida tão bem servida de transportes públicos -, durante alguns metros o passeio alarga ligeiramente: com algum jeitinho e uns encostos, já cabem três pessoas lado a lado, se não vier ninguém no sentido oposto, se não levarem volumes ou guarda-chuvas abertos:
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Uma festa.

Toda esta oferta de estacionamento parece não ser suficiente: ainda há carros estacionados em cima do passeio, carros estacionados em segunda fila…
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…e subitamente, enquanto estou a pensar nisso, o passeio pura e simplesmente desaparece. Em seu lugar, uma bomba de gasolina desativada:
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A largura de atravessamento pedonal depende agora da boa vontade dos automobilistas que invadem este espaço como se se tratasse de um parque de estacionamento.

E logo à frente, quando terminar esta original passagem pedonal, há caixotes de lixo, postes, caixas e carros atravessados no caminho dos peões:
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O imenso espaço para a circulação automóvel e para o estacionamento continua. O passeio alargou agora durante uns escassos metros, para logo de seguida reduzir – sempre com obstáculos a diminuir ainda mais a sua largura útil.
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O dono deste restaurante teve a brilhante ideia de colocar estes “pequenos” vasos no passeio – e que bem que ficam. Um deficiente em cadeira de rodas, se tivesse, por milagre divino, conseguido chegar até aqui, daqui provavelmente não passaria (mas poderia ficar a apreciar os belos vasos).

Segue-se, durante umas dezenas de metros, um passeio com uma largura livre de obstáculos um pouco maior:
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As árvores estão alinhadas com os postes de iluminação, no extremo do passeio.

É bom não perdermos noção da largura desta avenida:
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14 comentários:

Luís Lavoura disse...

Posso estar a ver mal as fotografias, mas o que nelas mais vi foram enormes engarrafamentos de tráfego.

A Joana queixa-se de a avenida ter tantas faixas de rodagem quando ela tem estes engarrafamentos enormes! Pergunto: se o número de faixas de rodagem fosse diminuído para que os passeios pudessem alargar, os engarrafamentos não seriam ainda muito maiores?

Luís Lavoura disse...

Há que ter em conta, ao analisar estas imagens, que a avenida 24 de Julho é ladeada por uma encosta muito íngreme, ao longo da qual há apenas ruas relativamente estreitas e nas quais não há, creio eu, (muitos) lugares de estacionamento.

Ou seja, a avenida 24 de Julho sofre com um excesso de tráfego e um excesso de estacionamento devido a não ter ao lado outras ruas que a apoiem.

Não quer isto dizer que não se pudesse fazer (muito) melhor, por exemplo pôr pilaretes, alinhar mobiliário urbano, etc. Mas diminuir o espaço de estacionamento e diminuir o tráfego, seria difícil.

João Garcia disse...

"[Cadeira de rodas? Conseguirá alguém percorrer esta avenida de cadeira de rodas?]"

Conheço uma pessoa que já fez esse exercício muitas vezes, comigo ao lado... o remédio é ir na estrada... na verdade, como se trata de uma estrada de acesso ao estacionamento tem pouco trânsito e dá para circular sem grandes preocupações, mas é óbvio que não é a solução ideal. Não estou a tentar justificar o absurdo da situação, estou apenas a relatar a experiência que realmente tenho com a situação de cadeira de rodas...

BTW, creio que o António Costa pretende realizar a circular das colinas, tentando reduzir o trânsito nestas avenidas marginais, fazendo o seu reperfilamento aproveitando os empreendimentos imobiliários que se irão no Aterro da Boavista... espero que não seja uma oportunidade perdida para tornar a cidade de Lisboa como uma cidade de todos, e não apenas para os carros...

Um bem haja a todos...

LxP disse...

Seriam maiores e seria ainda mais um desincentivo à opção de trazer o automóvel para esta avenida cujo destino final será, na maior parte dos casos, a Baixa.

Numa Avenida servida por comboios, elétricos e autocarros 24 horas por dia (em hora de ponta chegam a ser mais de 100 veículos por hora sem contar com os trajectos paralelos do eixo das Janelas Verdes e Conde Barão) a opção de fazer passear o automóvel parece ser algo a evitar.

Luís Lavoura disse...

"creio que o António Costa pretende realizar a circular das colinas, tentando reduzir o trânsito nestas avenidas marginais"

Espero que o FMI corte o orçamento da Câmara de Lisboa o suficiente para que esta jamais possa levar esse projeto a cabo.

E que a "Circular das Colinas" reduziria o tráfego nas avenidas marginais - mas à custa de aumentar o tráfego nas colinas, que é onde a maior parte dos lisboetas reside. Ou seja, tiraria o tráfego de onde ele incomoda relativamente poucos lisboetas para o pôr onde ele incomodaria muito mais lisboetas.

Luís Lavoura disse...

LxP

Não sei se essa estratégia que Você sugere (quantos mais engarrafamentos melhor, porque isso dissuade os automobilistas) é a mais adequada.

Eu diria que há sempre pessoas que precisam de utilizar o automóvel na sua vida profissional. A opção correta deve ser, em minha opinião, forçar toda a gente a internalizar o custo da opção automóvel, e não pôr toda a gente parada num engarrafamento monstro.

Ou seja, a opção correta deve ser a de taxar a utilização das vias, por forma a que elas só sejam utilizadas por quem tem verdadeiramente necessidade disso e por quem tem dinheiro para pagar essa utilização. Não deve ser a de deixar que as vias fiquem completamente entupidas.

Eduardo disse...

"creio que o António Costa pretende realizar a circular das colinas, tentando reduzir o trânsito nestas avenidas marginais, fazendo o seu reperfilamento"

"Espero que o FMI corte o orçamento da Câmara de Lisboa o suficiente para que esta jamais possa levar esse projeto a cabo"

Não se preocupe, Luís Lavoura, de intenções estamos fartos de ouvir falar, mas os anos passam e não se vêem melhoras para os lados do peão.

Miguel Barroso disse...

Luís Lavoura, Einstein, num dos seus muitos momentos de brilhantismo disse: "insanidade, é fazer sempre a mesma coisa, e esperar obter resultados diferentes".

Há décadas que se vem alargando as estradas, aumentando o nº de vias... resultado: de início resolve um pouco, mas passado algum tempo, mais carros e mais trânsito.

As experiências de sucesso que se têm agora tentado em países que já passaram por isto antes, baseiam-se precisamente no contrário. Diminui-se o nº de vias, e voilá - dá-se um fenómeno já documentado, chamado "evaporação do tráfego". Simplesmente diminui o nº de carros, e os engarrafamentos também diminuem. As pessoas começam a optar por outros modos de deslocação, que se tornam por sua vez, bem mais competitivos. Ganha o espaço público, ganha a economia, ganha o ambiente, enfim... ganhamos todos!

The Caped Crusader disse...

Pois Miguel Barroso, disse bem, mas a capacidade intelectual do Luís Lavoura não dá para tanto.

Aliás, o Luís Lavoura disse as barbaridades que disse sobre a 24 de Julho, mas não sabe, por exemplo, que graças a terem transformado aquela artéria numa autêntica auto-estrada, há muito poucos lisboetas que ali residem...

Estacionamento para quem, Luís Lavoura? Para quem vai para lá trabalhar? Nunca chegará todo o estacionamento que criem, mesmo que supram todos os passeios da zona, mesmo que construam dezenas de siloautos. Nunca há-de chegar.

Luís Lavoura disse...

"graças a terem transformado aquela artéria numa autêntica auto-estrada, há muito poucos lisboetas que ali residem"

Precisamente por isso, não vale de muito queixarmo-nos do muito tráfego, ruído, mau ar, etc nesta artéria.

Em qualquer cidade há sempre algumas avenidas ou vias rápidas de atravessamento, nas quais as condições para moradores são péssimas.

Loucura seria fazer aquilo que a Câmara deseja, tirar agora o tráfego destas artérias para o ir pôr a atravessar as colinas onde os lisboetas residem.

Nuno disse...

O problema não é o tráfego estar nas colinas ou nas marginais mas não estar de forma substancial em autocarros, comboios e bicicletas.

Assim haveria espaço adequado para todos.

Ricardo Moreira disse...

O engarrafamento constante da 24 de Julho não se deve à falta de largura/estreiteza da mesma, mas sim ao problema similar existente nas vistas de quem (des)governa a cidade e que resolveu fazer da Baixa um gueto, atravancando, de um lado, a 24 de Julho e, do outro, a Infante D. Henrique!
E, sim, havia espaço para os peões poderem circular em condições e seria bem mais barato fazer isso que outras obras que por aí andam e com pouca ou mesmo nenhuma utilidade.

Pedro Sequeira disse...

Luis Lavoura, quase que parei de ler os seus comentários quando insinuou que uma via que está entupida deve ser alargada mais e mais.. mas fiquei agradado quando disse:

"Ou seja, a opção correta deve ser a de taxar a utilização das vias, por forma a que elas só sejam utilizadas por quem tem verdadeiramente necessidade disso e por quem tem dinheiro para pagar essa utilização. Não deve ser a de deixar que as vias fiquem completamente entupidas."

Há neste momento uma petição para introduzir portagens na entrada de Lx. sugiro que a encontres, assines e partilhes com mais pessoas ;)

Passeio Livre disse...

pelo excelente acerco fotográfico que aqui tem, e com os devidos respeitos e honra, estas imagens serão usadas no Passeio Livre.
Excelente publicação, obrigados pelo exercício nobre de cidadania.
PL