O país das auto-estradas

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A partir da meia-noite de hoje, com a abertura ao tráfego do último troço da auto-estrada da Costa de Prata, passará a haver duas auto-estradas entre Porto e Lisboa.
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São números oficiais da União Europeia: segundo o mais recente Relatório da Comissão Europeia sobre o Sector da Energia e Transportes na U.E., publicado em 2009, Portugal era, em 2006 (ano a que se refere o relatório) o 5º país com mais quilómetros de auto-estradas por habitante (24 km por 100 000 habitantes). Sensivelmente o mesmo que a Espanha e mais do que os países mais ricos da U.E.: Alemanha, Suécia, Dinamarca, Itália, França e Reino Unido.
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Ainda em 2006, Portugal tinha 20 km de auto-estrada por cada 1000 km2, contra uma média europeia de 15 km. A rede portuguesa de auto-estradas correspondia a 2,3% da nossa rede viária total, o que constituía o 3º valor mais elevado da U.E. (éramos ultrapassados apenas pelo Luxemburgo e pela Espanha). Por fim, comparando a rede de auto-estradas com o nível de riqueza do país, Portugal era o 2º país da OCDE com mais quilómetros (8,3 km) de auto-estradas por mil milhões de dólares de PIB (mais, só o gigantesco Canadá)!
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A impressionante rede portuguesa de auto-estradas tinha, em 2006, 2 545 km. Daí para cá, o número não tem parado de aumentar: no final de 2008, íamos já com 2 860 km. Presentemente, há novas concessões em fase de concurso, no total de 936 quilómetros de auto-estrada. Anunciada foi também a concessão do Alto Alentejo: mais 344 km de auto-estrada. E há outras em estudo…
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Esta febre das auto-estradas começou no final dos anos 80, nos Governos de Cavaco Silva - cujo Ministro da Obras Públicas, Ferreira do Amaral, ficou conhecido como o “ministro do betão” ou “ministro das auto-estradas” -, os mesmos Governos sob cuja égide se ordenou o encerramento de grande parte da Rede Ferroviária Nacional, na sequência do ironicamente denominado “Plano de Modernização e de Reconversão dos Caminhos-de-ferro portugueses”, aprovado em Fevereiro de 1988. Isto numa altura em que nos países mais desenvolvidos da Europa se recomeçava a apostar no caminho-de-ferro, já então tido (de novo) como o transporte do futuro. A razia foi impressionante. Portugal tinha uma rede de caminho-de-ferro notável, embora muito carecida de remodelação, com uns impressionantes 3 580 km de via-férrea, distribuídos por todos os distritos do Continente. Quase 1/3 foi encerrada.
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Desde então, o nosso país fez uma opção clara pela rede rodoviária, em detrimento da ferroviária, ao contrário do que vem sucedendo por toda a Europa. Desde há mais de 20 anos que os nossos governantes nos tentam convencer que as auto-estradas são um motor essencial para o desenvolvimento económico do país. Mas, apesar de termos uma das maiores redes de auto-estradas da Europa, continuamos a ser dos mais pobres da mesma Europa. Alguma coisa não bate certo...
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Como dizia um dia Pacheco Pereira, mandar fazer uma auto-estrada é a decisão mais fácil de tomar por quem está no poder: não dá trabalho nenhum - encomenda-se um estudo, manda-se fazer o projecto, faz-se o concurso, o empreiteiro faz a obra e entrega-se o cheque. Já está. Temos obra feita!
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Nesta nossa terrinha, é tudo ainda mais fácil, porque o nosso povo adora auto-estradas (sobretudo se estiverem cheias de áreas de serviço). Autarcas por todo o país reclamam a sua auto-estrada (e até houve um – Mafra – que decidiu fazer uma - até à Malveira -, que agora pretende entregar ao Estado, com o argumento de que dá muito prejuízo).
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Anuncia-se uma auto-estrada e o povo bate palmas. Já com o comboio é outra coisa. A receptividade em relação a qualquer investimento na via férrea é tudo menos calorosa, para não dizer pior, TGV incluído.
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Entretanto, continuam a gastar-se rios de dinheiro em auto-estradas, muitas delas de duvidosa utilidade. De acordo com os critérios internacionais, uma auto-estrada só é justificável a partir de uma circulação diária média de 10 000 veículos. Segundo dados do Instituto de Infra-estruturas Rodoviárias, em muitas das nossas auto-estradas o tráfego médio diário é inferior a esse. E ainda continuamos a fazer mais auto-estradas…
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No meio disto tudo, há a salientar um efeito positivo: a maior circulação em auto-estrada, em percursos que anteriormente se faziam por estrada, tem contribuído para a redução da sinistralidade com vítimas em Portugal. Mas digamos que é uma maneira um bocado enviesada (e cara, muito cara…) de combater a sinistralidade rodoviária…
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4 comentários:

Miguel disse...

Os números são realmente inacreditáveis!!

Talvez a explicação seja mesmo essa: mandar fazer auto-estradas não dá trabalho nenhum e os portugueses adoram.

Quando os combustíveis chegarem (definitivamente?) a preços incomportáveis, o que vamos fazer a estas auto-estradas todas?...

Mafalda disse...

Quanto aos países que ainda estão "à frente" de nós (não por muito tempo, certamente...), seria interessante fazer uma comparação entre a rede de auto-estradas e a rede ferroviária...

miguel disse...

Mafalda, não é fácil comparar (não há uma medida única) mas aqui ficam uns dados que dão um retrato do que acontece:

http://menos1carro.blogs.sapo.pt/143478.html
http://menos1carro.blogs.sapo.pt/114422.html
http://menos1carro.blogs.sapo.pt/76381.html
http://menos1carro.blogs.sapo.pt/103202.html
http://menos1carro.blogs.sapo.pt/102191.html


peço desculpa por serem muitos... mas qualquer um deles dá o mesmo triste cenário.

Lapa disse...

Se calhar era de apostar mais em transportes públicos, sei lá, como o combóio, que cada vez mais estão a perder competitividade em relação aos transportes privados (vi na SIC no outro dia que o alfa vai custar mais 0,50€ a 1,50€). Custa-me ver o território português a ser rasgado por mais alcatrão com desculpas de melhores acessibilidades a populações periféricas quando uma boa gestão das redes de transportes públicos e do planeamento urbano poderiam realmente resolver o problema (mas parece que será sempre a solução mais fácil aquela que é adoptada). As vantagens destas apostas são inumeras mesmo para bolso dos portugueses. Até lá vamos fazendo aqueles dias internacionais sem carro nas cidades para acharmos que realmente estamos a fazer algo de melhor.
É lamentável a falta de visão e de ambição governamental que ainda acha que são este tipo de obras que vai melhorar a qualidade de vida dos portugueses.

Um abraço e parabéns pelo maravilhoso blog