Nos três anos e meio de blogue: autoestradas

I
Em 2009, este blogue nasceu no dia em que foi inaugurado o último troço da autoestrada da Costa de Prata, pelo qual se completou a segunda ligação em autoestrada entre Lisboa e Porto (foi, aliás, esse o ponto de partida para o primeiro artigo publicado no blogue). Num artigo publicado posteriormente, com base em dados de 2008 (os últimos até então disponíveis a nível comunitário), concluímos que Portugal tinha a segunda maior rede de autoestradas da Europa (mas já muito perto do primeiro lugar), ponderada a extensão total da rede com as variáveis população, área e riqueza do país.
I
Entre 2009 e 2013, a rede de autoestradas cresceu 12% (não incluídos os alargamentos). Nos últimos três anos, nunca passaram mais de três meses seguidos sem uma inauguração. Eis a lista:
I
A1
- Alargados para seis vias mais 25 km de autoestrada (2009 e 2010), tendo sido já reservada largura para um futuro alargamento para oito vias. Perto de metade da A1 já tem 6 ou mais vias de trânsito.
- Alargamento para seis vias do troço Carvalhos-Santo Ovídio (Área Metropolitana do Porto): em curso.
I
A2
- Alargamento para seis vias dos troços entre Coina e Palmela (Área Metropolitana de Lisboa) (10 km) (2010). Já foi reservada largura para um futuro alargamento para oito vias.
I
A3
- Alargamento do troço Maia-Santo Tirso (Área Metropolitana do Porto) (13 km) (2012).
I
A4
- Inaugurados treze troços de autoestrada (98 km) (2010, 2011, 2012 e 2013).
- Quatro troços de autoestrada presentemente em construção (66 km).
- Alargamento para oito vias do troço Águas Santas – Ermesinde (Área Metropolitana do Porto) (9 km) – em curso (projeto).
I
A8
- Inaugurado troço Leiria Sul – Leiria Nascente (7 km) (2011).
- Alargamento para seis vias dos troços entre Loures e Malveira (18 km) (Área Metropolitana de Lisboa) (2011).
I
A13
- Inaugurados quatro troços de autoestrada (68 km) (2012 e 2013).
- Troço Condeixa – Coimbra presentemente em construção (7 km).
I
A13-1
- Inaugurada em 2012 (10 km).
I
A16
- Inaugurados troços totalizando 23 km (Área Metropolitana de Lisboa) (2009).
I
A19
- Primeiro troço inaugurado em 2010, autoestrada concluída em 2011 (17 km).
I
A24
- Inaugurado troço Vila Verde da Raia – fronteira (1 km) (2010).
I
A26
- 11 km em vias de conclusão, troço de 7 km em construção.
I
A28
- Alargamento para seis vias dos troços entre Perafita e Póvoa de Varzim (Área Metropolitana do Porto) (20 km) - em curso.
I
A29
- Inauguração de troço de 13 km (2009).
I
A31
- Inaugurada em 2010 (5 km).
I
A32
- Inaugurada em 2011 (35 km) (Área Metropolitana do Porto).  
I
A33
- Quatro troços inaugurados em 2011 e 2012 (Área Metropolitana de Lisboa) (25 km).
I
A36
- Último troço inaugurado em 2011 (Área Metropolitana de Lisboa) (4 km).
I
A37
- Autoestrada alargada para seis vias (Área Metropolitana de Lisboa) (16 km) (2009).
I
A41
- Inaugurado troço de 33 km (Área Metropolitana do Porto) (2011).
I
A43
-Inaugurados dois troços de autoestrada totalizando 8 km (Área Metropolitana do Porto) (2010, 2011).
I
IP2
- Inaugurado troço de autoestrada de 29 km entre Trancoso e Celorico (2010).
- Troço de 23 km de autoestrada entre Évora e São Manços presentemente em construção.
I
Eixo Sul
- Inaugurados troços de autoestrada totalizando 30 km (2011, 2012).
I
VR Angra - Praia
- Autoestrada inaugurada em 2009 (22 km).
I
No total, entraram em serviço mais de 400 quilómetros de autoestrada (dois terços dos quais nos últimos dois anos, 40% só nos últimos 12 meses) e foram alargados troços de autoestrada totalizando perto de 100 quilómetros.
I
Outros 100 quilómetros de autoestrada estão presentemente em construção, a que se juntam mais 40 quilómetros de alargamentos em curso. O abandono de projetos de construção de autoestrada constituiu uma exceção e não é certo que seja para manter: por exemplo, relativamente à autoestrada Viseu-Coimbra - um dos projetos com adjudicação presentemente suspensa -, o Secretário de Estado dos Transportes e Obras Públicas afirmou recentemente que a sua construção está no «topo das prioridades».
I
Nenhum troço de autoestrada foi encerrado.
I
[A seguir, a ferrovia.]
I

Contratos de concessão de autoestradas e mobilidade sustentável

I
No domínio da mobilidade, é uma das regras mais retrógradas que vigora entre nós: em todos os contratos de concessão de autoestradas (com ou sem PPP) existe uma cláusula que impõe à concessionária o aumento do número de vias de trânsito em determinado troço da autoestrada (= lanço entre dois nós), sempre que o volume de tráfego automóvel nesse troço ultrapassar determinado limite:
I
            - Nas autoestradas com quatro vias de trânsito (duas em cada sentido), o troço tem de ser alargado para seis vias (três em cada sentido) quando o tráfego médio diário anual nesse troço atingir 35 mil veículos (em algumas concessões o limite é de 38 mil veículos);
I
            - Nas autoestradas que já têm seis vias de trânsito (três em cada sentido), o troço tem de ser alargado para oito vias (quatro em cada sentido) quando o tráfego médio diário atingir 60 mil veículos.
I
Não se exige sequer que o volume de tráfego se mantenha igual ou superior àquele limite durante um número mínimo de anos:
I
[O que permitiria evitar obras supérfluas como, por exemplo, o recente alargamento da A5 entre Estoril e Alcabideche, onde, no pós-alargamento, o tráfego automóvel se mantém bem abaixo do limite que determinou o aumento do número de vias…]
I
Pelo contrário, quando o limite é atingido, o projeto de obra deverá ser rapidamente iniciado, incluindo a realização das expropriações necessárias (e respetivos realojamentos), já que o troço alargado tem de estar em serviço no máximo até dois anos depois de o limite de tráfego ter sido atingido (nalguns contratos, o prazo é de três anos).
I
No contrato de concessão da Brisa, chega-se ao ponto de se prever a construção de uma nova autoestrada quando, por razões de ordem técnica ou económica, for “desaconselhável” fazer a obra de alargamento (pense-se, por exemplo, numa zona muito urbanizada, onde, para se fazer o alargamento, fosse necessário proceder à demolição de prédios de habitação). Ou seja, neste caso, em vez de se introduzirem duas novas vias na autoestrada existente, constrói-se uma nova autoestrada - portanto, com quatro novas vias.
I
Por vezes diz-se, erradamente, que as obras de alargamento de autoestradas não têm qualquer custo para o Estado. Sem esquecer o caso das autoestradas concessionadas à Estradas de Portugal (em que é o erário público que suporta integralmente o custo do alargamento), nos contratos de concessão existentes são quatro os modelos previstos:
I
1) Num primeiro grupo de casos, os contratos determinam expressamente que é o Estado que suporta a totalidade dos encargos do alargamento da autoestrada. É o que sucede, designadamente, na concessão Autoestradas da Grande Lisboa, na concessão Autoestradas do Grande Porto, na concessão Autoestradas da Costa de Prata, na concessão Autoestradas do Norte, na concessão Autoestradas da Beira Alta, na concessão Autoestradas do Norte Litoral e em casos específicos de outras concessões, como por exemplo o alargamento da A8 entre a CRIL e Loures na concessão Autoestradas do Atlântico, ou, no caso da concessão Brisa, os alargamentos da A1 entre Carvalhos e Santo Ovídio, da A2 entre Almada e o Fogueteiro, da A3 entre Águas Santas e Maia, da A4 entre Águas Santas e Ermesinde, da CREL (todos estes casos de zonas densamente povoadas, onde a probabilidade de alargamento é muito maior e os custos de obra são muito mais elevados), da A6 entre Elvas e Caia e da A14 entre Figueira da Foz e Santa Eulália.
I
2) Em três outras concessões (concessão Autoestrada do Algarve, concessão Autoestradas da Beira Interior e concessão Autoestradas do Interior Norte), estabelece-se um regime insólito: o alargamento da autoestrada, feito pela concessionária, implica a prévia negociação com o Estado de novas bandas de tráfego e de novas tarifas, feita de modo a que a concessionária “e os seus acionistas” não fiquem, após o alargamento, “nem em melhor nem em pior situação face ao investimento que tenham de efetuar em alargamentos”. Se nessa negociação a concessionária não aceitar um acordo com o Estado, é o Estado que suporta a totalidade do custo da obra de alargamento.
I
3) Num terceiro modelo (concessão Autoestradas do Atlântico, com a exceção já referida), o Estado paga a totalidade do valor das indemnizações pelas expropriações de terrenos necessários à obra de alargamento e os custos dos respetivos processos, cuja condução lhe incumbe, bem como o custo de servidões e de quaisquer outros ónus ou encargos que resultem da obra. A concessionária custeia a obra de construção propriamente dita.
I
4) Num quarto e último grupo de casos (concessão Autoestradas do Litoral, concessão Autoestrada do Marão, concessão Autoestradas do Douro Litoral e, com as exceções atrás referidas, concessão Brisa), estabelece-se que a obra de alargamento é custeada pela concessionária, sem comparticipação financeira do Estado.
I
No entanto, neste último grupo de casos (e no anterior, em relação à parte da obra que se diz não ser comparticipada pelo Estado), só precipitadamente se pode concluir que o custo é integralmente suportado pela concessionária da autoestrada: a esse custo corresponde um valor económico, que é uma contrapartida contratual e constitui, em qualquer caso, um “crédito” do Estado, de valor correspondente ao custo da obra, que poderia ser aplicado, por exemplo, em investimentos em modos mais sustentáveis de deslocação.
I
Alguns dos contratos de concessão foram recentemente renegociados, mas em nenhum deles esta regra foi eliminada ou alterada. Ela pura e simplesmente não é posta em causa: constitui um dado adquirido.
I
A conceção de que a um crescimento do tráfego automóvel se tem de responder com um aumento da capacidade de escoamento do tráfego, que é a filosofia inerente a este sistema, assentava bem nas políticas de mobilidade de há várias décadas, mas atualmente é bastante difícil compreender, isto num país onde se fala cada vez mais em “sustentabilidade” e onde se justifica constantemente a falta de investimento na ferrovia com a "falta de dinheiro".
I
O caso da autoestrada A5 – e isto só para citar um exemplo – é paradigmático: esta autoestrada foi recentemente alargada nos troços entre Carcavelos e Alcabideche, enquanto ali ao lado a importante linha ferroviária de Cascais está há muitos anos carecida de urgente investimento e à beira da rotura.
I
[E é possível que estejamos perto de um novo alargamento para oito vias dos troços de Miraflores até Carcavelos da mesma autoestrada (se viável), que registam há muito um tráfego muito superior a 60 mil veículos: no caso da A5, a regra da imposição do alargamento ficou contratualmente suspensa enquanto a CRIL não estivesse concluída, o que, como se sabe, já aconteceu.]
I
Num documento recente da Brisa, pode ler-se que esta concessionária gastou perto de mil milhões de euros em obras de alargamento de autoestradas. E se esse valor – e o de outros alargamentos – tivesse sido investido em obras de melhoramento ou de construção na ferrovia (sabendo-se que a maior parte do valor investido em ferrovia é financiada com fundos comunitários)? E se, nos contratos celebrados com as concessionárias, em vez de se impor o alargamento da autoestrada, se determinasse que o valor correspondente ao custo desse alargamento deveria ser aplicado em projetos de investimento na ferrovia? Não faria essa regra mais sentido num país que diz querer apostar na mobilidade sustentável e que, por outro lado, alega não ter dinheiro para investir na ferrovia?...
I
[Nota final: esta não é uma questão passada: a retrógrada regra está incluída em contratos celebrados para vigorar durante décadas. As obras de alargamento de autoestradas continuam a fazer-se, por imposição contratual, e sempre em zonas onde elas são bastante caras (ver, a este propósito, o artigo seguinte).]
I

A época do "lugar" à sombra

I
Chegou a época do “lugar à sombra não importa onde”, que, para mal dos nossos pecados, se estende normalmente por todo o período de calor em Portugal, o que em grande parte do país significa meio ano inteiro (Maio a Outubro) ou até mais, que isto do aquecimento global tem atirado o Verão até Novembro e às vezes nos tem brindado com umas temporadas de calor em Março.
I
I
Durante esta época, além da clássica “falta de alternativa”,
[“o que é que quer que eu faça?”]
da preguiça e comodismo,
[“não estou para andar 100 ou 200 metros a pé”]
da chico esperteza
[“assim poupo o dinheiro do estacionamento”]
e da falta de civismo pura,
[porque sim]
temos também o demolidor argumento da sombra. Assim, uma parte significativa dos poucos espaços no passeio que no resto do ano ainda são poupados à falta de civismo desta gente, são agora ocupados para garantir a importantíssima sombra para o popó (coitado). São os sempre disputadíssimos “lugares à sombra” em pleno passeio, debaixo de árvores – precisamente os locais onde se poderiam refugiar um pouco do sol abrasador os peões pobretanas e incultos que não se deslocam de automóvel para todo o lado ou que não têm a obsessão de deixar a carripana a 10 metros do sítio onde querem ir.
I
I

Nesta longa época especial, deparo sempre com gente que no resto do ano normalmente não estaciona ilegalmente, mas que nesta época procura sempre um lugar nos passeios, debaixo ou ao lado de uma árvore. É o chamado estacionamento selvagem sazonal, que é possível encontrar com muita facilidade, por exemplo, junto das praias. Sempre com a comovente "compreensão" policial.
I
Para estes senhores, tudo o resto não importa: se crianças, idosos, pais com carrinhos de bebé, deficientes em cadeiras de rodas, invisuais, todos nós, temos de circular pelo alcatrão, paciência! A única coisa que importa é que o seu automóvel fique à sombra.
I
A esta gente boa, muito obrigada! Boas sombras!
I
Ana
I
[Este artigo foi publicado no blogue há três anos e foi, na altura, remetido à PSP de Oeiras e à Polícia Municipal de Oeiras – sem qualquer resultado]
I

A Nova Oeiras de Ribeiro Telles transformada num parque de estacionamento

I
O arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles foi ontem distinguido com o prémio Jellicoe, o mais importante prémio, a nível mundial, na área da arquitetura paisagista.
I
Gonçalo Ribeiro Telles foi (com Sampaio Fortes) o arquiteto responsável pelo arranjo exterior (paisagismo) do bairro de Nova Oeiras (da autoria geral de Cristino da Silva), arranjo esse que constitui um elemento essencial desta urbanização com uma grande qualidade arquitetónica e urbanística e de características quase únicas em Portugal (e de que não há muitos exemplos em toda a Europa), que é considerada um dos exemplos mais emblemáticos do urbanismo moderno no nosso país (há um plano para a candidatar a Património da Humanidade).
I
Este bairro continua a ser uma referência e mantém, no essencial, as suas características originais. Mas está, em parte, desvirtuado pelo excesso de automóveis. A pretexto do prestigiado prémio que ontem distinguiu Ribeiro Telles, seguem-se apenas alguns exemplos.
I
Alameda Conde de Oeiras, o anel que envolve o bairro, com percursos pedonais arborizados e com espaços verdes a separar os peões dos carros: hoje, em alguns locais da rua, o estacionamento selvagem invade os espaços verdes e mesmo os passeios. Aquilo que foi concebido como uma área-verde-tampão entre os peões e os carros, está, em muitos locais, repleto de carros estacionados.
I
I
I
I
I
I
Nestes locais, os espaços verdes deixaram de o ser: estão destruídos pelos automobilistas sem civismo, perante a indiferença da autarquia e da polícia. Muitos destes automobilistas têm espaço de estacionamento no interior das suas moradias, o que torna a situação ainda mais insustentável.
I
Um dos elementos estruturantes do bairro é a sua magnífica rede de caminhos pedonais, concebida segundo o princípio da separação da circulação pedonal e da circulação rodoviária, para segurança, bem-estar e qualidade de vida dos peões. Os arruamentos interiores do bairro foram concebidos de modo a privilegiar a circulação dos peões. Mas hoje é frequente a presença de automóveis a barrar o caminho dos peões, inviabilizando (no mínimo, dificultando muito) a utlização dos caminhos pedonais.
I
I
I
I
I
I
I
I
No bairro, as áreas de estacionamento automóvel foram ampliadas e o estacionamento de carros em cima dos passeios e nos espaços verdes é muito abundante… O bairro de Nova Oeiras transformou-se, em grande parte, num parque de estacionamento. Até quando?...
I

A arte da política

I
Alameda Conde de Oeiras, em Oeiras. Em parte de um passeio deste arruamento, a autarquia teve a feliz ideia de substituir o piso de calçada portuguesa por um pavimento em pedra lisa. O principal objetivo foi facilitar a circulação de cadeiras de rodas, mediante a criação de um pequeno percurso que pudesse ser utilizado pelas pessoas com mobilidade reduzida utentes de um centro de paralisia cerebral aqui existente.
I
Eis que um dia os senhores autarcas tiveram a “brilhante” ideia de... colocar dois grandes contentores de lixo em cima do passeio…
I
I
…impedindo a circulação de cadeiras de rodas e não deixando senão uma estreita faixa de passeio para a passagem de peões.
I
Este absurdo manteve-se durante algum tempo, até que, certamente na sequência das reclamações recebidas, o erro lá foi corrigido e os contentores retirados do passeio. De seguida, num boletim informativo publicado pela Junta de Freguesia de Oeiras, os autarcas vangloriaram-se de terem retirado os contentores do passeio e de terem arranjado outro espaço para eles…
I
Ana
(nota: escrito pela Ana há cerca de um ano, e só agora publicado no blogue)

Cinco dias, cinco noites

I
O temporal do passado dia 19 de Janeiro derrubou várias árvores em Oeiras, tal como em muitas outras localidades do Continente. Esta imagem mostra uma dessas árvores (mais precisamente, um grande pedaço de árvore), que ficou a obstruir a totalidade do passeio e quase toda a pista ciclável, num dos principais acessos à estação de caminho-de-ferro de Oeiras:
I
I
A árvore ficou ali nada mais, nada menos do que cinco dias e cinco noites, a obstruir a passagem, até ser finalmente retirada pela autarquia.
I
Não tenhamos dúvidas: se a árvore tivesse ficado a obstruir o caminho dos popós, teria sido retirada pela autarquia, na pior das hipóteses, ao fim de poucas horas...
I

Pergunta aos autarcas: para que serve uma passadeira?

I
Há um género de passagens de peões que parecem ter sido desenhadas por gente que nunca atravessou uma rua a pé. Ou que não sabe para que serve uma passadeira. É verdade que a passadeira está lá, bem reconhecível: uma zebra na faixa de rodagem, atravessando-a. Mas nos extremos da passadeira não está o passeio. O iluminado projetista e os ainda mais iluminados autarcas que aprovaram o projeto acharam que era uma boa ideia meter lugares de estacionamento automóvel entre a passadeira e o passeio. É o que sucede nesta passadeira na Rua da Quinta Grande, em Oeiras (uma rua com muito tráfego rodoviário e pedonal):
I
I
I
Podemos deitar-nos a adivinhar o que é que terá passado pela cabeça destes senhores para projetar e aprovar esta aberração.
I
É um exercício inútil. Isto é tão disparatado que jamais perceberemos.
I
Os anos passam e ninguém tem o bom senso de acabar com este absurdo. Como se não existisse aqui qualquer anomalia. Como se isto fosse normalíssimo.
I
Talvez a solução passasse por obrigar os autarcas a (tentar) usar esta passadeira: primeiro, de mãos-livres; depois, duas pessoas cruzando-se em sentido contrário; depois, transportando sacos de compras; de seguida, com uma mala; depois, com um carrinho de bebé; finalmente, sentados em cadeiras de rodas. Talvez percebessem rapidamente.
I
I
Seguidamente, e na perspetiva da segurança rodoviária, os autarcas deveriam ser obrigados a fazer o seguinte teste: circularem nesta rua de carro e aproximarem-se desta passadeira no momento em que uma pessoa (uma criança sua familiar, por exemplo) se tentasse esgueirar entre os carros estacionados para chegar à passadeira. Talvez ficassem a perceber como a visibilidade do peão (sobre os carros) e a visibilidade dos condutores (sobre os peões) fica seriamente afetada, tudo se agravando se o peão for uma pessoa de estatura baixa, como por exemplo… uma criança.
I
Desengane-se quem pensar que este é um exemplar único: esta aberração repete-se muitas vezes pelo país fora. E em Oeiras acontece até em frente à Câmara Municipal
I
Se muitos autarcas largassem o automóvel de vez em quando e andassem mais a pé nos seus territórios de atuação, talvez passassem a ter mais sensibilidade para com os problemas dos peões, e imbecilidades como esta mais dificilmente ocorreriam.
I 

Circular em cadeira de rodas em Oeiras: 20 - Conclusões

I
Vinte e três anos depois da publicação da Lei de Bases da Prevenção e da Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência, e mais de quinze anos decorridos desde a publicação da lei que veio impor regras de acessibilidade para o espaço público (nomeadamente, passeios e atravessamentos pedonais), A Nossa Terrinha delimitou, num mapa de Oeiras, uma área cuja forma se assemelha ligeiramente a um focinho de cão…
I
I
…e saiu à rua para avaliar as condições de acessibilidade em cadeira de rodas nos arruamentos compreendidos no interior dessa área.
I
[Poucos meses antes, tínhamos oferecido o nosso trabalho voluntário à Junta de Freguesia de Oeiras, respondendo a uma mensagem que tínhamos recebido do respetivo presidente (em resposta a uma reclamação nossa sobre o deficiente rebaixamento de passeios junto à estação de Oeiras - que, diga-se a propósito, até hoje não foi corrigido). Propusemo-nos fazer um levantamento, em Oeiras, das passagens de peões onde os lancis tinham sido rebaixados com desrespeito dos limites legais, para eventual correção. Não obtivemos qualquer resposta.]
I
Fizemos medições em 70 passadeiras e em 112 troços de passeio, existentes nos 31 arruamentos que calcorreámos de uma ponta à outra.
I
Das 70 passadeiras (repartidas por 26 ruas), classificámos 61 como não acessíveis; ou seja, classificámos como acessíveis apenas 9 (em 5 ruas). Apenas 3 passadeiras (em 70!) estão sobrelevadas ao nível do passeio, o que, estando nós a falar do centro de Oeiras (e sempre de zonas residenciais), é revelador de uma política de mobilidade onde as boas práticas só são seguidas como exceção. Embora num número muito significativo de passadeiras (50) o passeio esteja rebaixado, a regra é a de a altura do lancil exceder o máximo admissível (2 cm) em pelo menos um dos lados da passadeira (chega a haver passeios rebaixados com mais de 10 cm de altura de lancil, o que está para além de toda a compreensão).
I
[Se 4 ou 5 centímetros de altura de lancil lhe parecem inofensivos, pegue numa mala com rodas; encha-a de forma a ficar pesada (uns 20 kg); atravesse a passadeira em passo lento. Quando as rodas da mala tocarem no lancil, perceberá que a mala não subirá o passeio. Terá então de a puxar com mais força ou de a levantar de forma a galgar o obstáculo. Agora tenha em conta que no caso da cadeira de rodas o peso é muito maior (pois transporta uma pessoa: podemos estar a falar de 80 kg ou mais) e não há ninguém para a puxar, empurrar ou levantar: a pessoa está sentada nela. O passeio deve estar rebaixado ao nível da passadeira, sem desnível (e é perfeitamente possível fazê-lo, como se verifica em algumas passadeiras). Os 2 cm de desnível previstos na lei são uma tolerância máxima: não há tolerância para além dos 2 cm.]
I

Em 15 das 26 ruas que têm passadeiras, encontrámos carros estacionados em cima da passadeira (ou, em três casos, no passeio, mas no enfiamento da passadeira); alguns deles (como o da imagem de cima) eram viaturas da própria Câmara Municipal de Oeiras.
IDos 31 arruamentos, classificámos como acessíveis apenas 3 (dois deles com reservas): trata-se de três pequenos arruamentos pedonais - e um deles é um beco sem saída.
I
Não é por acaso que os únicos (3) arruamentos acessíveis são arruamentos pedonais. Ou, por outras palavras, não é por acaso que nenhuma das (28) ruas acessíveis aos automóveis é acessível às pessoas que se deslocam em cadeira de rodas. Nos arruamentos com trânsito motorizado, o automóvel domina e o peão é absolutamente secundarizado. Os números são esmagadores:
I
- Não há uma única dessas 28 ruas cujos passeios formem, em toda a sua extensão, um corredor livre de obstáculos com pelo menos 1,2 metros de largura.
I
- Dos 109 troços de passeio existentes nessas 28 ruas, apenas 12 troços formam um corredor pedonal contínuo com pelo menos 1,2 metros de largura livre de obstáculos; ainda assim, desses 12 troços de passeio, só 4 é que não tinham carros estacionados em cima. E num desses 4, o passeio está em muito mau estado.
I
Como já suspeitávamos de que, a adotarmos o critério legal do corredor pedonal contínuo com a largura mínima de 1,2 metros livre de obstáculos, o resultado iria ser desastroso (apesar de 1,2 metros ser uma largura miserável), resolvemos aligeirar os nossos “requisitos” de acessibilidade, como explicámos no início do artigo: em passeios com uma largura de pelo menos 1,2 metros (largura indispensável à rotação sem deslocamento da cadeira de rodas), mas com alguns estrangulamentos originados por obstáculos (como por exemplo, postes, sinais de trânsito ou árvores), avaliaríamos como acessível o passeio em que esses obstáculos não impedissem a passagem de uma cadeira de rodas. As conclusões finais são estas:
I
 - 18 das 28 ruas não têm um único troço de passeio acessível às cadeiras de rodas.
I
- Dos 109 troços de passeio existentes nessas 28 ruas, só há 16 troços acessíveis a cadeiras de rodas (mesmo assim, em 5 desses 16 troços, encontrámos, em pelo menos uma das nossas visitas, obstáculos à circulação de cadeiras de rodas).
I
- Além desses 16, outros 12 troços de passeio seriam também acessíveis se não fossem utilizados pelos automobilistas para estacionamento.
I
- Das 28 ruas, só em 2 é possível circular de cadeira de rodas, no passeio, de uma ponta à outra da rua (essas duas ruas foram consideradas apenas parcialmente acessíveis por causa das passadeiras). Mesmo assim, com reservas: numa dessas ruas, a circulação em cadeiras de rodas está condicionada pelo espaço deixado pelos automóveis que diariamente invadem ambos os passeios; na outra, um dos passeios está em mau estado (intransitável?) e o do lado oposto tem, muitas vezes, lixo acumulado perto de um contentor, bloqueando por vezes a passagem.
I
É preciso ter em conta que quando referimos a existência de 16 troços de passeio acessíveis, estamos a falar, em regra, de troços isolados, sem ligação entre si.
I
Não se pense que está aqui em causa um universo de ruas estreitas, onde não é possível, mantendo-se a circulação automóvel, alargar o espaço de circulação pedonal (ou, como por vezes se diz, que em algumas ruas a questão só se resolve abatendo-se árvores - como se o problema estivesse nas árvores). Daquelas 28 ruas, a única rua onde isso realmente sucede é em parte da Rua Marquês de Pombal (local onde foi adotada, ao longo de alguns metros em que o passeio desaparece, uma solução de “zona 30” com “prioridade ao peão”, aliás ineficaz). Nas outras, a largura das ruas não pode constituir desculpa: a faixa de rodagem é, por regra, larga (havendo até ruas com dois sentidos de trânsito, ou com um sentido mas duas vias) e, por outro lado, quase todas as ruas têm lugares de estacionamento automóvel. Nestas últimas, atribui-se claramente prioridade ao estacionamento automóvel, impedindo-se dessa forma a acessibilidade das pessoas com mobilidade reduzida. Traduzido por miúdos, significa mais ou menos isto: as pessoas que se deslocam de cadeira de rodas não podem andar na rua, para que outras pessoas possam estacionar os seus carros mais perto de casa, ou mais perto das lojas / serviços, ou mais perto do local de trabalho.
I
[Já encontrar lugares de estacionamento para bicicletas ou para motas é outra história…]
I
O grau de gravidade do problema não é igual em todas as ruas. Nas ruas com mais trânsito, temos problemas sérios (por vezes muito graves) de segurança rodoviária. Mas nos arruamentos onde o trânsito automóvel é menor, é menos perigosa a circulação pedonal na faixa de rodagem. E é por isso que vemos alguns peões a circular despreocupadamente na pista dos carros: se vier um carro, esgueiram-se facilmente, deixam o carro passar e prosseguem caminho. Mas temos de deixar de raciocinar como se todos os peões não tivessem problemas de mobilidade: mesmo nessas ruas, o problema coloca-se de maneira bem diferente relativamente às pessoas com a sua mobilidade condicionada, nomeadamente aquelas que se deslocam em cadeiras de rodas (mas também idosos, invisuais, pais com carrinhos de bebé, pessoas com dificuldade temporária ou permanente em andar, etc.; no caso das crianças, o problema é outro, sendo obviamente indesejável que circulem na faixa de rodagem, nomeadamente por não terem a mesma consciência do perigo e uma noção real das distâncias). Uma solução de partilha da faixa de rodagem em segurança só poderia ser equacionada com velocidades de circulação automóvel muito baixas e medidas de acalmia de tráfego. E não é isso que sucede por aqui.
I
Se há autarcas que gostam de poder desculpar-se dizendo que problemas como este não se resolvem facilmente e em poucos anos, cumpre referir que o município de Oeiras é governado há 28 anos (apenas com um curto interregno) pelo mesmo presidente de câmara (que está agora a terminar o seu derradeiro mandato), pelo que neste caso não são invocáveis justificações como “a herança deixada pelos anteriores executivos camarários”. Esta é uma área onde a atuação da Câmara Municipal de Oeiras tem sido um desastre.
I
Esclareça-se também que a Junta de Freguesia de Oeiras tem beneficiado de atos de delegação de poder nesta matéria, sendo, por isso, corresponsável (por exemplo, muitas das obras de rebaixamento de passadeiras têm sido feitas pela Junta de Freguesia, por delegação do município).
I
Há, depois, o estacionamento selvagem. Todos os dias, uma grande quantidade de automobilistas contribui para a exclusão das pessoas com mobilidade reduzida (e para colocar em perigo muitos peões, crianças incluídas). E todos os dias a polícia contribui, por omissão, para essa exclusão (e para esse perigo).
I
Não é uma situação exclusiva da zona analisada. De Nova Oeiras à Figueirinha, da Medrosa ao Parque dos Poetas, da Quinta do Marquês a Santo Amaro, são inúmeros os locais de Oeiras onde todos os dias se vê as mesmas pessoas a estacionar os seus carros nos passeios. Muitas já nem procuram lugar para estacionar. Passam-se semanas, meses, anos, sem que uma só multa seja colocada nos para-brisas dos seus veículos. Da parte da própria Câmara Municipal de Oeiras é dado o mau exemplo: veem-se veículos da autarquia estacionados nos espaços pedonais e a autarquia chega a colocar sinais autorizando o estacionamento em cima do passeio ou a criar lugares de estacionamento nas passadeiras (e isso acontece até em frente à Câmara Municipal, para o estacionamento da viatura oficial do Presidente da Câmara...).
I
O estacionamento selvagem, nos passeios e nas passadeiras, é de tal forma abundante em Oeiras que encontrámos carros estacionados em cima do passeio em 23 das 28 ruas com tráfego automóvel, e só em 2 (duas) das 28 ruas é que não encontrámos carros estacionados no passeio ou na passadeira. Não se trata apenas de veículos de moradores: são também, em número muito significativo, veículos de pessoas de fora. 
I
[Nestas ruas, como noutras de Oeiras, vimos, revimos e voltámos a ver automobilistas a porem os seus carros no passeio sem procurarem um lugar, e por vezes havendo lugares de estacionamento vagos ao lado – tal é a confiança na falta de atuação da polícia.]
I
A realização deste trabalho implicou - como é fácil imaginar se se passar os olhos pelas primeiras 18 partes deste artigo - um demorado trabalho de campo. Na zona de Oeiras que delimitámos no mapa, percorremos todos os arruamentos de uma ponta à outra, num dos passeios e a seguir no outro. Fizemos medições em cada passadeira e em cada troço de passeio e tirámos centenas de fotografias. Estivemos em cada arruamento mais do que uma vez. Em suma, estivemos  muito tempo "no terreno". Mas nunca vimos multas nos para-brisas dos inúmeros veículos que encontrámos estacionados nos passeios e nas passadeiras. Com uma única exceção. Um dia, vimos, com surpresa, a polícia a atuar. A raridade do acontecimento levou-nos a parar o nosso trabalho, e durante quase 40 minutos ficámos, discretamente, a ver essa atuação.
I
Aconteceu na Rua José Falcão. O polícia multou três carros estacionados em cima do passeio.
I
O polícia passando a multa do terceiro carro. As setas assinalam os outros dois veículos autuados.
I
Depois, ficou a conversar com uma senhora, na esquina daquela rua com a Rua Capitão Sebastião Gustavo Pinto. Na envolvente muito próxima daquele local (Rua Nossa Senhora do Egipto, Rua Neves Elyseu, Rua dos Lusíadas, etc.), contámos dezenas de carros estacionados nos passeios e nas passadeiras. Sem uma única multa. Enquanto isso, a conversa prosseguia. A certa altura, chega um automobilista e estaciona em cima do passeio, nas barbas do agente (a uns 10 metros). O condutor sai do carro, dirige-se ao agente, diz-lhe qualquer coisa. O agente ter-lhe-á, talvez, dito para estacionar um pouco mais à frente, porque foi isso que o condutor fez de seguida: estacionou em cima do passeio, mas onde este alarga um pouco (escassos metros atrás de dois dos três veículos autuados). Multa, nem vê-la.
I
A seta amarela assinala o carro estacionado no passeio, mas neste caso sem “direito” a multa. O polícia está na esquina.
I
Ao fim de 20 minutos, chegam dois colegas num veículo da polícia. Agora temos três agentes na conversa. Cinco minutos depois, os dois agentes abandonam o local, permanecendo o inicial. Chegam dois automobilistas que estacionam em cima do passeio, descaradamente, nas barbas do polícia. Não são multados.
I
Mais um carro acabado de estacionar no passeio, à vista do polícia, e sem multa.
I
Aparentemente, o agente terá achado que três multas eram o suficiente naquele dia. Não ficámos para ver a continuação desta “esforçada” atuação policial. A única que vimos durante todo o nosso "trabalho de campo"...
I
Autarcas (responsáveis pela acessibilidade dos espaços públicos), automobilistas (os que estacionam nos espaços pedonais), polícia (a única entidade de que os cidadãos dependem para a repressão do estacionamento abusivo e outras situações de obstrução ilegal do espaço pedonal), moradores (os que depositam resíduos e caixotes de lixo no passeio): todos eles são cúmplices do triste cenário relatado neste artigo (dormirão estas pessoas de consciência tranquila?).
I
A realidade mostrada e descrita neste trabalho - talvez inédito, pela forma como foi feito e por abranger uma área relativamente grande de um centro urbano - é muito desoladora. Não é, infelizmente, exclusiva de Oeiras, como todos sabemos (embora isso não desculpe, obviamente, o que se passa em Oeiras). O interesse deste artigo extravasa, pois, o local a que se refere. O objetivo deste trabalho é agitar as consciências adormecidas, lutar contra a indiferença reinante perante este estado de coisas absolutamente vergonhoso. Dirige-se, naturalmente, aos responsáveis acima referidos: autarcas, polícia, automobilistas, moradores. Mas também a todos os outros. Aos que não ligam ou já se conformaram, consciente ou inconscientemente. Mas também aos que se preocupam: a solução não é ficarmos deprimidos ou limitarmo-nos às lamentações nas mesas dos cafés, nos blogues ou no Facebook. Mudar as coisas depende também de nós. É muito importante não ficarmos de braços caídos perante esta vergonha. É preciso reclamar, insistir e nunca desistir. RECLAMAR ATÉ QUE NOS OUÇAM.
I
Catarina, Marta e Jorge
(segundo um projeto concebido pela Joana e pela Ana, que ainda fizeram algum trabalho preliminar)
I
Nota: em breve, e em jeito de complemento a este artigo, vamos dar uma pequena “volta” por Oeiras, fora da zona aqui analisada.
I
[Este artigo vai ser enviado à Câmara Municipal de Oeiras, à Assembleia Municipal de Oeiras, ao Presidente da Junta de Freguesia de Oeiras, à PSP, à Polícia Municipal de Oeiras, à Inspeção Geral da Administração Local, à Inspeção Geral da Administração Interna e ao Provedor de Justiça.]
I
Durante a realização deste trabalho, fomos abordados muitas vezes. E embora estejamos a falar de exceções (apenas isso), fomos, por vezes, sujeitos a “inquéritos” feitos em tom mais ou menos agressivo, fomos mais do que uma vez ameaçados de agressão, e, numa ocasião, foi no último instante que o Jorge evitou ser agredido - quando tirávamos fotografias em locais onde havia carros estacionados em cima dos passeios ou das passadeiras (houve até um automobilista que estava a sair da zona de carro e voltou atrás, parou o motor e saiu do jipe para nos abordar por andarmos a fotografar carros estacionados no passeio! Olhava insistentemente em redor, dando a ideia de que estaria à espera de não haver outras pessoas à vista, para nos "tratar da saúde"). Mais numerosas foram as pessoas que nos abordaram argumentando - aparentemente com grande convicção - que não podíamos andar a tirar fotografias aos carros. Muitas destas pessoas reagiram como se estivéssemos ali para pôr em causa “direitos fundamentais”, designadamente o “direito” de estacionar a lata nos espaços reservados aos peões. Mas também houve outras que consideraram suspeito que alguém andasse a tirar fotografias às suas casas (pensavam elas que eram as casas que fotografávamos), receando que estivéssemos a planear futuros assaltos, e em duas ocasiões em que as coisas estavam a ficar mais “complicadas”, a única forma de acalmarmos os ânimos foi explicar o que estávamos ali a fazer – e num desses casos a reação final acabou por ser positiva. Na Rua Cândido dos Reis, fomos alvo de prolongada chacota por parte de comerciantes. De resto, também obtivemos reações positivas: houve pessoas (na maioria, idosos) que, talvez adivinhando o que estávamos a fazer, nos desabafaram, por exemplo, a “vergonha” que era os carros todos os dias estacionados nos passeios, os passeios degradados ou ocupados com tralha de toda a espécie ou a praga dos caixotes de lixo deixados em cima do passeio.
[Mais de 36% dos habitantes da freguesia de Oeiras integram-se, pela idade, na categoria dos chamados “peões vulneráveis”: idosos e crianças. Não são uma “pequena minoria”, como por vezes se diz; têm é pouco ou nenhum poder reivindicativo e, no caso das crianças, não têm direito de voto.]
I
Índice:
Circular em cadeira de rodas em Oeiras (1) (inclui texto de introdução)
Circular em cadeira de rodas em Oeiras: 20 – Conclusões
I