À
primeira leitura, o título deste artigo poderá suscitar alguma perplexidade,
uma vez que nos têm apresentado as auto-estradas como instrumento de coesão
territorial e social.
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Mas
se pensarmos que apenas parte da população possui automóvel, o título começará
a não parecer tão despropositado.
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Como
não nos temos cansado de repetir, o excesso de construção de auto-estradas tem
constituído um enorme incentivo à utilização do automóvel particular, em
prejuízo, designadamente, da qualidade de oferta do transporte público
(ferroviário e não só).
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Se
isto não parece tão evidente nas metrópoles, nem nos eixos com maior procura de
deslocações (onde a auto-estrada até veio permitir, em muitos casos, viagens de
autocarro mais rápidas), a verdade é que fora dessas situações, em muitas zonas
do país, a procura do transporte público baixou para níveis tais que
determinaram, quando não mesmo o cancelamento de rotas, uma diminuição - por
vezes forte - da sua frequência, gerando um círculo vicioso que vai agravando o
problema, uma vez que o decréscimo de qualidade do serviço prestado pelo
transporte púbico conduz, por seu turno, a uma maior diminuição da sua procura.
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Pelo
país fora, muitas pessoas deixaram de ter meio para se deslocar.
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Os
exemplos sucedem-se e deles vamos tendo, de vez em quando, eco nos meios de
comunicação social (nomeadamente, televisão, rádio e jornais), que surgem como
último recurso de reclamação para quem não obtém resposta satisfatória dos
poderes públicos. Não há muito tempo, era relatado o caso do transporte público
entre duas cidades alentejanas que, face à enorme redução da procura, tinha
passado de cinco autocarros diários em cada sentido para apenas um. Naturalmente,
há quem não encaixe nos horários do único autocarro existente e fique pura e
simplesmente privado de transporte: pessoas há que foram obrigadas a desistir
de empregos.
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Se
isto poderá parecer estranho a quem tem automóvel, pense-se que há quem nunca tenha
conseguido tirar a carta (há gente que não tem qualquer aptidão para conduzir –
embora isso em Portugal não constitua grande obstáculo a tirar a carta), há
quem nunca tenha tido dinheiro para a tirar, há quem não possa conduzir por
motivos de saúde (deficientes, doentes cardíacos, pessoas com propensão para
grandes quebras de tensão e muitos outros) ou por motivos legais, e há muito
boa gente que não tem carta e/ou automóvel por outras razões (por exemplo, por
opção).
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Estes
são os novos discriminados em Portugal.
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Há
algumas semanas, Marina Araújo, jornalista estagiária, descrevia, num jornal
regional das Caldas da Rainha,
a sua odisseia quando o curso que escolheu tirar a obrigou a ir para Abrantes.
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No
país das maravilhosas e rápidas auto-estradas, das Caldas da Rainha a Abrantes
passou a ser “um pulinho”, através da A15, da A1 e da A23:
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(para ampliar, clicar no mapa)I
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Cento
e quinze quilómetros. A viagem de automóvel demoraria cerca de hora e meia por
auto-estrada. Mas, como muito mais gente, Marina não tinha automóvel, nem
sequer carta de condução. Para ir das Caldas a Abrantes ao domingo e de
Abrantes às Caldas à sexta-feira, só de transporte público.
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Marina
começou por tentar o comboio
– uma vez que a Linha do Oeste passa nas Caldas da Rainha. Mas descobriu
depressa que para ir das Caldas a Abrantes teria de fazer um desvio absurdo,
dada a inexistência de uma linha férrea no sentido Poente-Nascente [a REFER
elaborou recentemente um estudo de reativação de uma linha existente entre
Santarém e Rio Maior, que seria complementada com uma curta linha entre Rio
Maior e as Caldas, mas concluiu que não valia a pena]. Assim, Marina tinha de
apanhar o comboio para Norte, até Alfarelos, e em Alfarelos teria de apanhar
outro comboio para Sul, até ao Entroncamento, dando esta volta:
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(para ampliar, clicar no mapa)
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Ou
então apanhava um comboio para Sul, até Lisboa, e em Lisboa apanhava outro comboio para Norte,
até ao Entroncamento, dando esta volta:
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(para ampliar, clicar no mapa)
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Do Entroncamento, tinha
comboio directo para Abrantes.
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Em qualquer das hipóteses,
a viagem nunca demoraria menos de 4h30m
e os bilhetes custariam cerca de 20 euros.
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Afastada a hipótese do
comboio, Marina optou pelo autocarro,
mas o cenário não era muito mais risonho. Autocarro direto, não existia.
Estudou outras opções. A primeira era apanhar um autocarro às 15h para Leiria e
outro daí para Abrantes. Uma segunda opção era apanhar um autocarro das Caldas
para Lisboa às 16h e daí outro para Abrantes. Em qualquer dos casos, teria de
esperar muito tempo no transbordo. Na melhor
das hipóteses (por Leiria), a viagem demorava 4 horas (um dia Marina demorou sete: saiu das Caldas às 15h e
chegou a Abrantes às 22h).
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No sentido Abrantes -
Caldas, tudo piorava. O último autocarro partia de Abrantes às 15:30h de
sexta-feira. Com aulas até mais tarde, a única alternativa era apanhar um
autocarro expresso para Santarém e em Santarém apanhar uma carreira para Rio
Maior (com o risco de perder esta se aquele expresso chegasse atrasado). A
partir de Rio Maior é que era pior: não havia transporte – só se alguém fosse
buscar Marina de carro para a levar às Caldas (30 km).
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A solução do comboio
era má. A do autocarro, má era. Marina tentou uma solução combinada, no sentido Caldas – Abrantes: das Caldas até
Santarém ia de autocarro e de Santarém a Abrantes ia de comboio. O preço desta
opção até era o mais barato. Mas quando tentou esta hipótese, teve a má
surpresa de verificar que a estação de caminho-de-ferro de Santarém ficava fora
da cidade, bem longe da estação de camionagem, e só apanhando um táxi é que
conseguiria chegar a tempo de apanhar o comboio. A solução tornava-se mais
cara.
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Num ano, Marina lá teve
um semestre em que à segunda-feira só tinha aulas à tarde. Saía às 8:15h das
Caldas, num expresso até Torres Novas, onde chegava às 10:00h. Em Torres Novas,
esperava duas horas pelo autocarro
que a levava a Abrantes, onde chegava às 13:30h, ao fim de 5h15m de viagem.
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Entre as cidades das
Caldas da Rainha e de Abrantes são 115
quilómetros em auto-estrada e apenas 100
quilómetros por estrada. Mesmo tomando como referência o trajeto mais longo
(115 km), podemos concluir que para Marina as 4h30m da viagem de comboio significavam, na prática,
uma média “estonteante” de 25 km/h.
Na primeira hipótese de autocarro considerada (4 horas de viagem), a média
subia para uns maravilhosos 28 km/h.
Na segunda hipótese (5h15m de viagem), a vertiginosa média era de 21 km/h.
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No país das rápidas
auto-estradas.
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A cidade das Caldas da
Rainha fica no litoral. A cidade de Abrantes é tão interior como Penafiel ou
Guimarães. Agora imagine-se como se
passam as coisas na faixa mais interior do país, onde a situação é muito
mais grave. Um «erro histórico e irrecuperável», como afirmava recentemente a
especialista em geografia humana Fernanda Cravidão a propósito do completo
abandono a que foi votado o interior do país em termos de transportes públicos.
Daí até ao despovoamento é um pulinho rápido.
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Ana Figueiredo
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Fonte: crónica da
Gazeta das Caldas de 3/9/2010 "Das Caldas da Rainha para Abrantes –
uma aventura em transportes públicos".



















