(continuação) (clique aqui para ver a décima parte)
Em conclusão, por muito que nos tentemos convencer do contrário, Portugal não tem mais justificação para as auto-estradas do que os outros países da União Europeia. Pelo contrário: não é um país rico. Se tudo quanto ficou dito neste artigo fosse irrelevante, sobraria sempre este argumento decisivo.
Não vivendo nós num país rico, todos devíamos ficar perplexos com o facto de as análises de custo/benefício das novas auto-estradas nunca incluirem alternativas, mas apenas e tão-só a situação preexistente. Compensa assim tanto construir uma auto-estrada até Bragança, bastante mais cara do que uma estrada? E se se optasse antes por uma requalificação do atual IP4, que em grande parte da sua extensão é uma boa estrada, eventualmente acompanhada da construção de uma linha férrea ou da requalificação e prolongamento da encerrada Linha do Tua? Em termos de custo benefício, quais seriam os resultados dessa análise comparativa?
Apesar de não sermos um país rico, não tem havido a mínima preocupação em poupar na construção de auto-estradas. E não são apenas as auto-estradas construídas sem volume de tráfego que as justificasse, ou as caríssimas e disparatadas auto-estradas urbanas e suburbanas. É também a quantidade de auto-estradas paralelas a outras auto-estradas que se vão construindo pelo país fora.
Este é, por enquanto, o exemplo mais absurdo:
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A azul e a vermelho, estão destacadas, respetivamente, as auto-estradas A29 e A1, que passam uma ao lado da outra. O absurdo é tal que se chega ao ponto de estar numa das auto-estradas e se poder dizer adeus a quem está a passar na outra ao lado (e isto não é ficção: é mesmo verdade).
Sem surpresa, nesta zona, a auto-estrada A1, recentemente alargada, regista agora um tráfego inferior àquele que determinou o seu alargamento...
Apesar de tudo isto, está projetada uma terceira auto-estrada para passar ao lado destas duas, destacada a preto neste mapa. São três auto-estradas num corredor com a largura máxima de dez quilómetros.
[Precisamente nesta zona, a Linha do Norte está particularmente saturada e - pior - a precisar muito de obras: mas "não há dinheiro"...]
Outros exemplos sucedem-se pelo país fora. A já referida auto-estrada A10 (a preto) corre paralela à A1 (a azul): apenas veio encurtar um pouco (quase nada) a ligação entre Alverca (A9) e o Carregado (A1):
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Esta é a tal auto-estrada com três faixas de rodagem e cujo tráfego é tão reduzido (porque será?...) que nem a sua construção se justificava.
No litoral centro, mais duas auto-estradas "gémeas": as auto-estradas A8 e A1, junto a Leiria:
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(a preto: as auto-estradas existentes nesta zona)
Ao lado destas duas, está a ser construída uma terceira auto-estrada (entre Tomar e Coimbra).
Estes são apenas três exemplos. Basta olhar para um mapa atualizado de Portugal para constatar que há muitos outros casos.
E este é o mais recente exemplo de desperdício de dinheiros públicos:
E este é o mais recente exemplo de desperdício de dinheiros públicos:
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A preto, as auto-estradas já existentes. A vermelho, a (discutível) auto-estrada presentemente em construção, entre Amarante e Bragança, que até Vila Real se desenvolve cerca de 20 quilómetros abaixo da já existente auto-estrada A7. Se se aproveitasse esta auto-estrada (uma das que tem um tráfego muito baixo…), evitava-se construir o troço Amarante-Vila Real [ou mesmo também o troço de Vila Real a Murça – neste último caso, bastaria construir o pequeno troço destacado a azul (onde atualmente passa a N212)]. Perder-se-iam uns poucos minutos nos tempos de deslocação (dependendo dos pontos de partida e de destino), mas poupar-se-ia muitíssimo dinheiro: o troço entre Amarante e Vila Real é precisamente o troço tecnicamente mais complicado e o mais caro. Caríssimo, aliás: envolve a perfuração, através da Serra do Marão, de um enorme túnel - o maior túnel da Península Ibérica.
Como se vê, no que toca a auto-estradas, gastamos à grande e sem olhar a custos. Como se não tivéssemos onde gastar o dinheiro. E isto é muito difícil de explicar num país com tantas carências.
A febre das auto-estradas iniciou-se com a chegada de Cavaco Silva ao poder (final de 1985), que coincidiu com o início da entrada em Portugal dos fundos milionários da União Europeia, com a baixa do preço do petróleo para níveis históricos e com uma desvalorização significativa do dólar dos EUA, que permitia comprar o petróleo a preços ainda mais baixos, tudo criando a ilusão de um país rico e de um recurso (o petróleo) inesgotável e barato. Mas ainda hoje, um quarto de século depois, Portugal continua a insistir no mesmo modelo, apesar de o cenário ter piorado significativamente.
A auto-estrada é obra fácil e vistosa, que deixa o povo satisfeito e rende votos. Mas é difícil não considerar chocante toda esta despesa num país com tantos problemas. Não é só em Portugal que há auto-estradas. Mas não haverá outro país da União Europeia com tão grande contraste entre o país das luxuosas auto-estradas e o outro país, a realidade… Um país onde, como escrevia recentemente António Barreto, “quase perdemos a agricultura, a floresta e o mar, recursos naturais de alto valor, mas desperdiçados pela facilidade da vistosa obra pública”.
Por muito que isso nos desgoste, não temos capacidade económica para ter 3 200 quilómetros de auto-estradas, quando simultaneamente temos tantas carências.
Dado que os portugueses gostam muito de auto-estradas, há quem assemelhe este cenário ao do menino pobre que não consegue meter na cabeça que não pode ter uma PlayStation.
Vivemos, é verdade, numa democracia. Quem decide onde devem ser gastos os dinheiros públicos são os portugueses, através dos representantes que elegem para o parlamento nacional. Não se pode é deixar de se ser coerente com as opções que se tomam. Não é possível aplaudirmos os 3 200 quilómetros de auto-estradas e ao mesmo tempo ficarmos espantados com o endividamento do país, queixarmo-nos dos sacrifícios que nos são exigidos por causa do défice, da justiça que não funciona, da cobertura da rede de cuidados de saúde que devia ser melhor, da inexistência de uma escola perto de casa e de um sistema educativo de qualidade, dos transportes públicos que são "maus", do estado da nossa cultura, do valioso património que está a cair, da licença de maternidade que é curta e dos fracos incentivos à natalidade, etc., etc., etc. É preciso perceber que o dinheiro não cai do céu, não estica, não chega para tudo. Pensem nisso.
Joana Ortigão
Nota importante: este artigo não pretendeu, nem de perto, nem de longe, constituir uma análise de custo / benefício das auto-estradas que se construíram em Portugal. São apenas algumas reflexões e não passam disso.














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